As articulações na disputa pela presidência do Senado passam pela possibilidade de o PT ficar com a presidência do Conselho de Ética. O partido deve apoiar Renan Calheiros (MDB-AL) para o comando da Casa. O conselho é feudo do MDB. Nos últimos seis anos foi presidido por João Alberto Souza (MDB-MA), alinhado a José Sarney. O senador maranhense, porém, encerra o mandato em fevereiro e abre disputa pelo controle de um dos órgãos mais poderosos da Casa, responsável por instaurar processo de perda de mandato contra senadores.
» Faca e o queijo... O presidente do Conselho de Ética tem poder para instaurar ou arquivar numa canetada pedidos de investigação contra colegas. Alberto Souza livrou vários aliados da guilhotina do conselho.
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» A gente tenta. O primeiro-secretário da Câmara, Fernando Giacobo (PRPR), consultou a área técnica sobre a viabilidade de reajustar o Cotão Parlamentar. O valor destinado a cobrir despesas do mandato varia de R$ 30,7 mil a R$ 45,6 mil, dependendo do Estado do parlamentar.
» Sem aval. Seria uma alternativa ao não reajuste salarial dos deputados. A área técnica foi contra.
Em entrevista ao ‘Estado’, Paulo Igor Bosco da Silva, autor da queixa que originou a Operação Métis, revela ação não registrada em escritório de ex-senador
Erich Decat, O Estado de S.Paulo
BRASÍLIA - Autor da denúncia que originou a operação da Polícia Federal no Senado na sexta-feira passada, o policial legislativo Paulo Igor Bosco Silva afirmou que seus colegas cumpriram uma missão “secreta” no escritório particular do ex-presidente da Casa José Sarney (PMDB-AP), em Brasília. O objetivo, como em outros pedidos feitos pelos parlamentares, era descobrir se o local estava grampeado por eventuais escutas ambientais e telefônicas.
Silva recebeu o Estado na tarde de sábado e detalhou a denúncia apresentada ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal. A varredura de grampos realizadas no escritório de Sarney, de acordo com ele, foi feita por meio de uma “ordem de missão oculta”, não numerada, em julho de 2015, quando o ex-parlamentar não exercia mais cargo público.
“Muitas vezes a emissão de ordem de missão vinha não numerada. Uma ordem de missão não numerada é aquela que está inscrita no papel, mas não entra no controle. Tem a ordem 1,2,3,4, 5 e, a partir do momento que emito uma sem numeração, significa que ela não está entrando no controle. Isso aconteceu na do Sarney”, afirmou Silva. “Ordem de missão não numerada não é normal porque todo documento oficial tem que ter um controle do órgão.”
Afastado das atividades por motivos de saúde, Silva, de 29 anos e há quatro anos na Polícia Legislativa, diz que fez a denúncia após suspeitar de que as ações de varreduras tinham como objetivo embaraçar as investigações da PF no âmbito da Operação Lava Jato. Ele nega relação com o fato de estar respondendo a um procedimento interno sob a acusação de dar aulas em um cursinho em horário de expediente. “Não tem fundamento, porque a denúncia que fiz foi de maio e a sindicância é de 31 de agosto”, afirmou.
Desdobramentos das investigações da PF apontam que um grupo de policiais legislativos, liderado pelo diretor da Polícia do Senado, Pedro Ricardo Araújo Carvalho, “tinha a finalidade de criar embaraços às ações investigativas da PF em face de senadores e ex-senadores, utilizando-se de equipamentos de inteligência”. Entre os beneficiados também foram citados os senadores Fernando Collor (PTC-AL) e Gleisi Hofmann (PT-PR), além do ex-senador Lobão Filho (PMDB-MA).
Carvalho e mais três policiais legislativos foram presos pela PF, mas apenas o diretor continua detido. Em nota divulgada na sexta-feira, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), defendeu a atuação dos policiais subordinados a ele e afirmou que as varreduras não acarretam em outros tipos de monitoramento.
Foto: José Cruz/Agência Brasil
Buscas. PF e MPF investigam a atuação de policiais legislativos do Senado para atrapalhar o andamento da Lava Jato
Lava Jato. Silva relatou também uma ordem de “missão não numerada” nos escritórios particulares de Lobão Filho no Maranhão. Na ocasião, porém, houve resistência por parte dos agentes do Senado destacados para a operação.
“Como era algo que causava estranheza, o pessoal acabou entendendo, por bem, que não seria cumprido se não tivesse a ordem por escrito. E foi feito, apareceu a ordem por escrito e eles foram cumprir. Mas eu me recusei”, afirmou.
Segundo ele, a recusa ocorreu após notar uma associação do pedido de varredura com uma ação da Lava Jato. “A PF fez uma operação que envolveu o Lobão e pouco tempo depois foi determinado uma varredura nos escritórios particulares e na residência lá no Maranhão.”
A mesma iniciativa teria ocorrido após batida da PF nas residências do senador Fernando Collor (PTC-AL), realizadas em 15 de julho, em Brasília. “Assim que a Polícia Federal saiu da Casa da Dinda, o pessoal entrou para fazer a varredura. Assim que saíram do apartamento funcional dele, o mesmo procedimento foi feito” disse Igor.
“Isso me causava estranheza. Se a Operação Lava Jato estava com a autorização judicial e a PF cumpriu uma decisão também com autorização, como é que eu vou, na sequência, no mesmo endereço, fazer uma operação de contrainteligência verificando se existe ou não o grampo? Você pode até me falar: mas o grampo não poderia ser externo, de outro lugar? Poderia, mas também poderia ser da PF. E obviamente não vou saber identificar qual é qual, encontrando um, vou tirá-lo. E evidentemente que isso poderia atrapalhar o andamento das investigações.”
O policial legislativo afirmou desconhecer de quem partiam as ordens para as missões. “É a dúvida que surge, mas eu também não posso tirá-la. Desconheço se havia alguma determinação superior, alguma combinação. Para cima não sei o que acontecia, sei o que acontecia do Pedro(diretor da Polícia Legislativa) para baixo.”
Ele revelou ainda que, após a operação de sexta, foi ameaçado por um agente próximo do diretor da Polícia Legislativa.
Defesa. Procurado pelo Estado, o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, que defende Sarney, afirmou que o ex-senador não se lembra da varredura em seu escritório. “O Sarney não se lembra dessa varredura. Não tem nenhuma relação com ato secreto. Não tenho conhecimento de que foi feito varredura depois que ele deixou o Senado. Se foi feito depois, ele, como presidente do Senado, pode até discutir se houve alguma questão administrativa, alguma falha. Mas jamais se cometeu um crime.”
O advogado-geral do Senado, Alberto Cascais, foi procurado ontem, mas não respondeu aos telefonemas até o fechamento desta edição.
Casa escondeu atos em 2009
As ordens não numeradas da Polícia Legislativa remetem a outro episódio que mostrou uma “caixa-preta” no Senado. Em junho de 2009, o Estado revelou cerca de 300 atos administrativos que não foram tornados públicos, como prevê a Constituição, e favoreciam parentes de parlamentares ou mesmo eles próprios. Esses atos ficaram conhecidos como “atos secretos”.
Um dos principais personagens daquele episódio foi justamente o então presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP). Entre os atos secretos esteve a exoneração do seu neto, loteado em um gabinete. O objetivo foi não dar visibilidade a um parente não concursado de Sarney na instituição, quando o Senado já deveria cumprir as regras antinepotismo estabelecidas no ano anterior pelo STF.
Na época, Sarney chegou a subir à tribuna e dizer que não sabia “o que é ato secreto”. Dois meses depois, ele admitiu que soubera desde o fim de maio. A mudança de posicionamento foi reação a uma fala do ex-diretor da Casa Ralph Siqueira, de que teria avisado Sarney sobre os atos.
Depois que as irregularidades vieram à tona, os atos foram publicados em edições suplementares do boletim. Sarney decidiu não anular as decisões tomadas pela Mesa Diretora, responsável pela publicação dos atos, alegando que não teria poder para isso.
João Abreu teria recebido R$ 3 milhões em propinas do esquema Lava Jato para distribuir a integrantes do governo do Maranhão em troca de precatório milionário
João Abre era chefe da Casa Civil do governo Roseana Sarney (acima). Foto: Márcio Fernandes/Estadão
Por Ricardo Galhardo
A Polícia Civil do Maranhão indiciou o ex-secretário da Casa Civil do governo Roseana Sarney (PMDB), João Abreu, por corrupção. Ele é suspeito de ter recebido R$ 3 milhões em propinas para garantir que o governo maranhense, na gestão Roseana, pagaria um precatório de R$ 134 milhões à empresa Constran-UTC.
O milionário precatório do Maranhão é um emblemático capítulo da Operação Lava Jato que escancarou o elo do doleiro Alberto Youssef, pivô da investigação sobre esquema de propinas na Petrobrás, com o empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da UTC Engenharia que virou delator e confessou cartel na estatal petrolífera entre 2004 e 2014.
Além do ex-secretário da Casa Civil de Roseana foram indiciados outros personagens importantes da Lava Jato – o próprio doleiro, o carregador de malas de dinheiro de Youssef, Rafael Ângulo Lopes, e Adarico Negromonte, irmão do ex-ministro do governo Dilma Rousseff Mário Negromonte, todos sob suspeita de terem operado os pagamentos.
A Polícia enquadrou, ainda, o corretor Marco Antonio Ziegert, o Marcão, suposto elo entre Youssef e o governo do Maranhão. O indiciamento se baseia em depoimentos e delações premiadas colhidas pela Lava Jato e testemunhos da contadora de Youssef, Meire Poza, e do sócio do doleiro no laboratório Labogen, Leonardo Meirelles, feitas pela própria Polícia Civil do Maranhão.
Segundo os depoimentos, Negromonte e Ângulo fizeram ao menos três viagens a São Luís a mando de Youssef nas quais levaram a propina em dinheiro vivo escondido no próprio corpo. De acordo com a Polícia Civil maranhense, o secretário reclamou da falta de R$ 1 milhão no montante da propina. Isso teria levado o próprio Youssef a ir até São Luís para resolver pessoalmente o problema.
Youssef foi preso em um hotel de luxo na capital maranhense no dia 17 de março de 2014. A prisão desencadeou a Lava Jato. De acordo com a Polícia Civil, enquanto Youssef era preso Marcão saiu do hotel com a propina que seria entregue a integrantes do governo Roseana.
“Na oportunidade da prísão de Youssef, Marcão não teria sido abordado pela Polícia Federal, embora estivesse no mesmo hotel, e conseguiu efetivamente levar o dinheiro da propina para membros do governo”, diz o relatório.
Em março deste ano, diante das revelações feitas pela Lava Jato, a juíza da 1.ª Vara da Fazenda Pública do Maranhão, Luiza Nepomucena, desobrigou o governo a pagar as parcelas restantes do precatório. Na mesma época a Constran rescindiu o acordo feito com a administração Roseana para quitação da dívida.
O governador do Maranhão, Flavio Dino (PC do B), que sucedeu Roseana no Palácio dos Leões, determinou a criação de uma comissão para apurar o caso. O advogado de João Abreu, Carlos Seabra, disse que ainda não teve acesso ao teor do indiciamento e pediu que as perguntas fossem enviadas por e-mail, mas não respondeu aos questionamentos.
A pedido de Lula, a presidente reeleita Dilma Roussef convidou José Sarney a ser seu novo ministro da pasta de cultura. “Serei ministro e, ao mesmo tempo, presidente da Academia”, afirmou Sarney. Diante de comentários de que, para presidir a Academia, seria necessário que o atual senador morasse no Rio, veio a rápida resposta, sem constrangimento: “Rui Barbosa presidiu a Academia morando na Bahia”.
Foi em março de 1985, durante o primeiro mês do governo Sarney, que surgiu o atual Ministério da Cultura, anteriormente MEC – Ministério de Educação e Cultura, que reunia os dois setores então considerados afins. É também de sua iniciativa a primeira legislação federal de incentivo fiscal à produção cultural, a Lei Sarney de Incentivo à Cultura (1986), que foi gérmen da atual Lei Rouanet, esta última relatada no Congresso pelo futuro ministro.
Intervenção de ex-presidente no debate nacional reverbera pouco; no Maranhão, clima de mudança coloca em xeque seu domínio
Figura dominante da política nacional desde que governou o Maranhão na década de 1960, o senador e ex-presidente da República José Sarney (PMDB), de 84 anos, entrou na campanha deste ano vivendo um período de declínio.
Essa “baixa” ficou evidente na última semana, quando Sarney tentou intervir no debate da eleição presidencial. Ele criticou seus aliados Lula e Dilma Rousseff. Disse que o PT corre o risco de perder a eleição e que Lula parece ter perdido a “aura de invencibilidade”. Também bateu em Marina Silva (PSB), afirmando que ela “tem cara de santinha”, mas é “radical” e “raivosa”. As declarações em nada mudaram o cenário da disputa.
O declínio do patriarca começa no local onde ele se projetou para a política. O ex-presidente entrou na eleição maranhense deste ano apoiando o segundo colocado nas pesquisas, Edison Lobão Filho (PMDB), e sem a perspectiva de, mesmo em eleições futuras, ver um parente reassumir o governo estadual.
Sarney não tem um herdeiro para substituí-lo após a aposentadoria - ele diz que deixará a vida pública em janeiro de 2015. Sua filha, a atual governadora Roseana (PMDB), foi reeleita em 2010 e não pôde disputar o cargo de novo. Depois de especulações sobre tentar o Senado, ela anunciou que, como o pai, vai se aposentar após terminar o atual mandato, em dezembro.
Os outros filhos do ex-presidente são o deputado federal Zeca (PV-MA) e o empresário Fernando. Mas uma rara convergência entre aliados e adversários de Sarney é a certeza de que nenhum dos filhos tem condição de assumir o lugar do pai. Um sempre se dedicou mais à carreira política em Brasília. O outro se tornou o homem forte dos negócios da família.
Políticos que estiveram com Sarney por décadas aguardam a chance de ocupar o espaço deixado por ele. Um dos primeiros da fila é o ministro de Minas e Energia e também ex-governador do Maranhão, Edison Lobão (PMDB), que emplacou seu filho como candidato do grupo “sarneyzista” neste ano.
“Edison Lobão pai era o candidato natural do grupo. Não foi candidato porque teve problema de saúde”, diz o deputado Chiquinho Escórcio (PMDB-MA), um dos principais auxiliares de Sarney. O senador Lobão Filho foi escolhido, segundo Escórcio, porque pesquisas do partido indicavam sua viabilidade. Também foram cogitadas, diz o deputado, as candidaturas do ex-ministro Gastão Vieira e do presidente da Assembleia Legislativa, Arnaldo Melo.
A escolha de Lobinho - como é conhecido o candidato em sua terra natal - acabou tornando a situação eleitoral de Sarney ainda mais frágil. No meio da campanha, a revista Veja publicou reportagens ligando não apenas a família Sarney, mas também Lobão pai ao esquema de corrupção montado pelo ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa e pelo doleiro Alberto Youssef. Segundo a publicação, Costa citou Roseana e o ministro entre os políticos beneficiados pelo esquema.
A relação entre o grupo de Sarney com Costa e Youssef passou a ser usada no discurso do candidato oposicionista, Flávio Dino (PCdoB), ex-deputado federal que está em primeiro nas pesquisas de intenção de voto e pode até vencer no 1.º turno.
No debate entre Dino e Lobão Filho promovido pela Federação das Indústrias do Estado do Maranhão, o assunto foi mote de diversas rodas de conversa paralela. “Ele está foragido”, disse o deputado Domingos Dutra (SDD-MA), sobre a ausência de Lobão pai no debate. Coube ao candidato defender o pai. Indagado pelo Estado sobre as acusações, Lobinho disse: “Nunca houve esse episódio. É inteiramente falacioso.”
Após Lobão ser envolvido no escândalo, o PT, que entrou formalmente na coligação de Lobinho, enviou adesivos da presidente Dilma Rousseff ao lado de Flávio Dino para manifestar apoio ao candidato do PCdoB. Um dia depois, a própria presidente da República confirmou a legitimidade do material. “Eu mandei porque o Flávio Dino me apoia. Há adesivos para todos os candidatos que me apoiam”, afirmou Dilma em entrevista coletiva.
O candidato de Sarney poderia ter sido outro. Até o início do ano, Roseana tentou viabilizar o peemedebista Luís Fernando Silva, ex- secretário da Casa Civil e de Infraestrutura. Mas, por ser próximo da família de Jorge Murad, marido da governadora, ele teve receio de perder influência em outras alas do PMDB.
Assim como tentou entrar no debate da eleição nacional, Sarney também participa de eventos da eleição maranhense, em que manifesta apoio a Lobinho. A depender do resultado das urnas, ele pode ter não apenas perdas políticas, mas também econômicas. Faz parte do conjunto de promessas de Flávio Dino cortar repasses do governo para o grupo de comunicação de Sarney, que inclui a TV Mirante - retransmissora da Globo. “A TV Mirante vai ter uma participação de acordo com sua importância. Não vou eliminar a TV Mirante porque isso seria perseguição. Mas não vai ter privilégio, como hoje tem”, afirmou Dino.
Sarney, Roseana e Edison Lobão não quiseram conceder entrevista ao Estado. O Estado de S. Paulo
É fato conhecido que ano de eleição tem regras próprias: mais greves, mais reivindicações, maiores movimentações sociais. Mas 2014 está sendo diferente de todos os outros anos eleitorais.
A Copa do Mundo maximizou essas estridências eleitorais e escancarou a distância entre a sociedade e a política, entre a expectativa e a realidade. A última confirmação veio pelo Pew Research Center, renomado instituto de pesquisa norte-americano, que, em recente relatório, deu nome aos bois nessa generalizada sensação de crise.
O atual quadro de insatisfação apresenta um desafio para o Estado brasileiro nas suas três esferas. Não se trata apenas de um problema criado pelo sentimento popular. Existem inúmeras questões que o poder público precisa enfrentar responsavelmente: a (i)mobilidade urbana, o combate às drogas, a educação, a segurança pública, etc. E, numa democracia, a solução de qualquer um desses problemas nunca é algo meramente técnico, operacional. Requer sempre, como condição necessária, a sua viabilização política.
Neste sentido, o legado mais prejudicial que o PT deixa ao País, nestes 12 anos de poder federal, não é na economia, cujo cenário é grave, para não dizer gravíssimo. A sua herança realmente maldita é na política, ao perpetuar e intensificar a lógica do populismo.
Na voracidade por se instalar no poder, utilizou o seu capital político - em essência, o carisma de um homem - para excluir qualquer racionalidade do debate público, vendendo e prometendo o impossível. Impregnou de tal forma o sistema de populismo que, por exemplo, todos os partidos não tiveram outro jeito senão apoiar uma lei que se sabe impossível de ser cumprida: o Plano Nacional da Educação, com a vinculação de 10% do PIB para a educação. Era evidente que quem ousasse se posicionar de forma contrária à lei estaria morto nas próximas eleições.
O papel aceita tudo, e vai-se deformando a percepção popular, como se o problema brasileiro fosse uma questão de voluntarismo político. O resultado é evidente: não temos um país que aprendeu a andar com as próprias pernas, que sabe sonhar, que olha o presente nos olhos, sem medo do futuro.
Assemelha-se mais a uma casa onde o pai e a mãe endoideceram, tiveram-se por ricos e gastaram o que tinham e o que não tinham, contando bonitas e ilusórias histórias aos filhos, que vão descobrindo aos poucos que a festa acaba, que não há mais dinheiro para o almoço e que o mundo é mais complexo do que aquilo que estavam habituados a ouvir em casa.
Por fim, tem-se um país desiludido, conforme semanalmente vão mostrando as pesquisas nacionais e internacionais. O populismo gera volatilidade, altos e baixos "aparentemente" inexplicáveis.
Há quatro anos podíamos tudo, com a abundância do petróleo do pré-sal como cartão de embarque para o mundo desenvolvido e a felicidade perpétua. Não é de estranhar, já que as ideologias têm no seu âmago a ideia do progresso inexorável. Bastaria cumprir a cartilha e tudo seria perfeito.
A sociedade brasileira anseia por uma melhor educação? Sim, mas o primeiro passo educativo é a responsabilidade. Para gastar mais em educação - que é necessário, mas não é o único nem o principal problema - é preciso cortar gastos em outras áreas. Isso não é neoliberalismo. É simplesmente não enfiar a cara no buraco, como uma avestruz diante do perigo.
Como disse Fernando Gabeira, em artigo publicado no Estado (Dilma e as uvas, 6/6), "até que ponto o cinismo triunfará amplamente numa sociedade democrática é o enigma que envolve o futuro próximo do Brasil". É possível uma mudança? Como em política não há determinismos, a resposta é sim, e dentro do mais delicado respeito à democracia.
As crises são sempre oportunidades de renovação, já que fazem ver além do discurso oficial. O pessimismo não é a única carta disponível diante das tristes notícias que chegam aos brasileiros todos os dias. Com o voto, é possível do limão fazer limonada.
O poder tem suas vantagens. Em 2013 o PT bateu novo recorde de arrecadação de doações de empresas privadas, chegando a quase R$ 80 milhões. É uma marca particularmente notável pelo fato de não ter sido um ano eleitoral, em que as doações se destinam, basicamente, ao custeio das atividades partidárias. Segundo revelou o jornal Valor, com base na prestação anual de contas apresentada pela legenda de Lula & Cia. ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 2013 essas doações foram 57,3% maiores do que no primeiro ano do governo Dilma Rousseff (2011). Os principais doadores do PT- geralmente os mesmos que dão dinheiro para todas as outras legendas partidárias - são empreiteiras de obras públicas e grandes empresas que dependem fortemente da boa vontade do poder público para o desenvolvimento de seus negócios. Isso evidencia, desde logo, a distorção representada pela indevida influência que a força do dinheiro empresarial passa a ter na política e, consequentemente, na administração pública, a partir do instante em que as corporações fazem "doações" aos partidos. Justiça seja feita, essa distorção - que o STF está na iminência de erradicar - não é uma invenção do PT. Há mais de uma década no poder, a companheirada que não quer largar o osso só fez "aperfeiçoar" a distorção, enquanto jura devoção à exclusividade do financiamento público. Mas não deixa de ser muito revelador de seu verdadeiro propósito -a permanência no poder a qualquer custo - os petistas se deixarem tranquilamente financiar pela elite que tão ferozmente combatem. Afinal, quem são os donos das maiores empresas do País? E bota elite nisso, porque 74,3% das doações de empresas recebidas pelo Diretório Nacional do PT no ano passado (RS 59,27 milhões) saíram do bolso de um grupo de apenas 10 delas. À frente desse grupo está uma empreiteira que contribuiu com generosos RS 12,3 milhões, despesa contabilizada que representa apenas 2% dos mais de RS 590 milhões que faturou em contratos com o governo federal em 2013. A lógica desse processo de financiamento partidário - que transforma governantes e aspirantes a essa condição em reféns do poder econômico - por si só demonstra que o modelo é incompatível com os fundamentos de uma sociedade democrática, na qual o voto de cada cidaadão é o único instrumento legítimo para a eleição de mandatários. Empresas não votam. E seu objetivo é, primeiro, o lucro e, depois, a maximização do lucro - o que não é nenhum pecado ou demérito no capitalismo. A receita total do diretório nacional do PT em 2013, ainda segundo a prestação de contas apresentada ao TSE, foi de RS 170 milhões. Depois dos RS 79,7 milhões em doações de empresas (57,3% do total), a segunda maior parcela é constituída pelos recursos públicos provenientes do Fundo Partidário: R$ 58 milhões (34%). E ainda R$ 32 milhões (18,8%) em contribuições de filiados que ocupam cargos na administração pública. As doações de pessoas físicas foram de apenas RS 2,9 mil, equivalentes a menos de 0,05% da receita total. A aparente má notícia é que, daqueles RS 170 milhões, o saldo remanescente para o ano eleitoral de 2014 foi de modesto R$ 1,6 milhão. Isso deveria preocupar a cúpula do partido, que terá de enfrentar milionários compromissos financeiros na campanha eleitoral deste ano. Financiar candidaturas ao Planalto, ao Congresso, às governanças e assembleias estaduais, com os requintes tecnológicos determinados pelos marqueteiros, demanda recursos astronômicos. Mas a elite política não está preocupada com isso. A máquina arrecadadora petista - e a dos demais partidos também - tem um longo, ameno e proveitoso convívio com a elite que é dona do dinheiro. Fique também tranquilo o cidadão-contribuinte. No final, será ele o verdadeiro financiador das campanhas políticas milionárias, pois as obras públicas que forem feitas e os serviços que forem prestados certamente virão generosamente majorados para proporcionar o reembolso daquilo que, para uns, é financiamento de uma atividade cívica, mas, para outros, é um investimento altamente lucrativo.