quinta-feira, 16 de abril de 2026

Os 96 milhões que não decidiram em quem votar - Renato Meirelles

 


O Seu Valdir tem uma loja de material de construção em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Quando perguntamos o que ele esperava de 2026, a resposta não teve nada a ver com Brasília: “Estou calculando quantos sacos de cimento a mais eu vendo se o movimento da Copa esquentar o comércio aqui.” Valdir até pensa na eleição. Mas a eleição não pensa nele. Ou melhor: ainda não apareceu quem fale a língua do boleto dele.

Valdir é um entre 96 milhões.

Na pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta semana, a primeira pergunta eleitoral do questionário — a de número 9, feita antes de qualquer estímulo, antes de qualquer cartela com nomes de candidatos — revelou que 62% dos eleitores brasileiros simplesmente não souberam dizer em quem pretendem votar para presidente. Sem ajuda, sem empurrão, sem lembrete. Sessenta e dois por cento. Traduzindo: são cerca de 96 milhões de brasileiros que, hoje, não verbalizam espontaneamente um candidato à Presidência da República. Se não verbaliza, o voto não é consolidado. É fumaça, não fogo.

Esse número deveria ser o centro de qualquer análise sobre 2026. E não é por capricho metodológico. É por um motivo que qualquer eleitor entende na hora: a urna eletrônica funciona por voto espontâneo. Ninguém chega na cabine e encontra uma cartela com os nomes dos candidatos para escolher. O eleitor digita um número. Se ele não sabe esse número, se não tem esse nome grudado na cabeça, o voto estimulado das pesquisas é cenário, não sentença. É temperatura, não diagnóstico.

Mas vamos supor que esse argumento não convença. Vamos supor que alguém diga: “Renato, esses 62% são frouxos, muita gente ali vai acabar lembrando na hora”. Tudo bem. Vamos deixar o espontâneo de lado e olhar outro dado da mesma Quaest: 43% dos eleitores afirmam que ainda podem mudar de voto. São quase 67 milhões de brasileiros que já declararam uma intenção de voto e, mesmo assim, dizem que não bateram o martelo. Gente que respondeu um nome ao entrevistador, mas com a convicção de quem escolhe sabor de sorvete na fila — sabe que pode trocar antes de chegar no caixa.

Somando as duas coisas, o que temos é o retrato de uma eleição desenhada, mas não decidida. Os protagonistas existem. Os campos estão montados. Lula de um lado, a marca Bolsonaro de outro. Mas entre o campo montado e o voto depositado na urna existe um oceano de incerteza que nenhuma manchete de pesquisa deveria esconder.

O Seu Valdir não está sozinho. Ele faz parte de uma massa gigantesca de brasileiros que reconhece os nomes do jogo, mas ainda não fechou emocionalmente essa conta. Gente que está mais preocupada com o preço do gás, com a parcela do carro, com a vaga do filho na creche do que com a disputa entre Brasília e Brasília. Essa gente vai decidir a eleição. Mas vai decidir mais perto da urna, quando o barulho da campanha finalmente competir com o barulho da vida real.

Quem olha para abril e enxerga outubro está confundindo ensaio com estreia. As pesquisas mostram tendência, inclinação, ponto de partida. Não mostram chegada. E quem garante que sabe o resultado de uma eleição em que 96 milhões ainda não sabem dizer um nome e 67 milhões admitem que podem mudar está, no mínimo, mal informado. Ou, no máximo, vendendo certeza que não tem.

A eleição de 2026 ainda não começou para quem vai decidir 2026. E o Seu Valdir continua fazendo conta de cimento.


segunda-feira, 2 de março de 2026

FRASE DO DIA - Édouard Louis, escritor francês

 Mas, na verdade, o mundo literário tem os mesmos mecanismos de violência, exclusão, dominação e imperialismo que você encontra na economia. É exatamente a mesma coisa. Algumas pessoas concentram capital, enquanto outras têm esse mesmo capital negado.

segunda-feira, 21 de julho de 2025

No Painel da Folha


 

Folha de S. Paulo - Congresso afronta o país no trato das emendas

Mecanismo, que abocanhou R$ 176 bi do Orçamento em 10 anos, tem uso paroquial e está envolvido em suspeitas de corrupção


Em um país com limitações orçamentárias, os efeitos deletérios das emendas parlamentares para toda a sociedade só são superados pelos danos causados por sua proliferação. Desde 2015, quando a execução desses mecanismos paroquiais do Orçamento federal se tornou obrigatória, o pior da tradição da política tem emergido.

Há muito a se lamentar. A começar, pela decisão do Congresso Nacional de inserir na Constituição, em 2015, o direito para seus integrantes a parcela significativa das despesas orçamentárias de cada ano, em detrimento das prioridades de investimento e de custeio do Executivo em áreas como saúdeeducação e infraestrutura.

Por si só, nada poderia ser mais disfuncional para o modelo de equilíbrio e de atribuições específicas dos três Poderes do que o Legislativo assumir funções típicas do Executivo, eximindo-se de responsabilização.

Por fim, é preciso ressaltar a aviltante expansão desse butim nos últimos dez anos. Como evidenciou reportagem da Folha, entre 2015 e 2024, as emendas parlamentares consumiram R$ 173 bilhões a mais do que se tivessem sido corrigidas somente pela variação da inflação.

O relatório preliminar da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para o ano eleitoral de 2026 reserva às emendas a fatia de R$ 54,2 bilhões. Desse volume, 77% sairá do Congresso e chegará ao governo com a imposição de execução.

O quadro agrava-se diante dos dribles dos parlamentares a decisões do Supremo Tribunal Federal (STF). Ao passar as emendas de relator, consideradas inconstitucionais em 2022, para as comissões da Câmara e do Senado, o Legislativo deu provas de deslealdade aos princípios republicanos.

Ainda mais grave são o flagrante uso eleitoral de grande parte das emendas, que alimentam o clientelismo e o paroquialismo como meios de perpetuar carreiras públicas, a omissão das políticas de interesse nacional e, inevitavelmente, a corrupção.

A isso soma-se a disfuncionalidade. Como evidenciou recente estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o aumento do volume de emendas na área da saúde resultará em problemas futuros para a oferta de serviços e dificultará o financiamento de políticas com potencial de reduzir desigualdades que grassam no sistema. Em suma, sua aplicação e resultados são de "qualidade duvidosa".

Haveria alguma chance de correção se o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), fizesse valer sua afirmação de que "as emendas não são intocáveis" e estão sujeitas a corte. Considerando o papel do instrumento na cooptação de apoio a Motta na Casa, porém, sua palavra já está sob suspeita.

As emendas podem até se converter em arma do Legislativo para exigir do Palácio Planalto o necessário corte de gastos. Mas somente o acinte do Congresso ao espírito da Constituição e aos contribuintes explica sua dimensão atual e seu uso distorcido.

segunda-feira, 14 de julho de 2025

No Painel da Folha - Camarão dedura Brandão pra Lula

 


NOS JORNAIS

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               Governo do Maranhão entrega obra de urbanização na Lagoa da Jansen

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