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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Marina Silva responde a perguntas de representantes da classe artística

RIO - Luiz Carlos Barreto, cineasta e produtor: A indústria do entretenimento movimentou R$ 1,7 trilhão em 2010, segundo a Pricewaterhouse. No seu programa de governo há algum plano estratégico para o setor? Ou vamos continuar a tratar a indústria cultural como uma atividade ornamental?
Apesar da nossa riqueza cultural, o Brasil não figura na lista dos 20 maiores produtores de bens e serviços criativos no mundo, daí nosso programa contemplar a riqueza cultural como geradora de valor e competitividade globais focando em oito ações prioritárias, como a criação de um sistema de informações sobre economia criativa; a formação profissional; o apoio a empresas do setor; crédito para empreendedores criativos desprovidos de garantias ou avalistas, via Fundos de Aval, entre outros.
Ivan Lins, músico: Os ex-ministros Gil e Juca Ferreira enviaram para a Casa Civil no fim de seus mandatos uma proposta de reforma do Direito Autoral depois de anos de consultas públicas. Há mais de 3 anos os criadores esperam para conhecer o resultado desse esforço. Que compromissos podemos esperar?
A reforma da lei está estacionada na Casa Civil há meses. É nosso compromisso enviá-la ao Congresso Nacional logo nos primeiros meses de 2015. O melhor seria conciliar a defesa dos interesses dos que criam com a facilidade de acesso pela sociedade. Não é razoável a “solução” que prega que os artistas precisarão se sustentar fazendo shows até o final de seus dias ou então vendendo camisetas. É necessário um equilíbrio entre os interesses de produtores de conteúdo, os provedores de aplicação da internet e a sociedade civil.
Patricia Pillar, atriz: O tema reforma política me parece fundamental até para as questões da Cultura. Sem ela, não é possível construir um modelo de democracia que represente os interesses do povo brasileiro. Qual será seu compromisso em relação à reforma política?
Sem dúvida, um dos grandes entraves que a gestão do MinC sofre no atual governo diz respeito exatamente ao (mau) hábito político de entregar “nacos” do Estado a interesses privados ou partidários, negociando o ministério por objetivos outros que não os da Cultura. Nosso compromisso será assegurar uma gestão competente e comprometida com a criatividade, a identidade e a diversidade do povo brasileiro.
Lira Neto, escritor: Qual é a sua posição em relação à polêmica das biografias não autorizadas? O Procure Saber defendeu, de público, a necessidade de autorização prévia dos biografados ou de seus herdeiros legais. Biógrafos, jornalistas e intelectuais protestaram, evocando o direito constitucional à liberdade de expressão.
Neste assunto há que buscar um equilíbrio de direitos. De um lado há o direito à privacidade e à honra das pessoas; de outro, há o direito à informação e à livre expressão. Com equilíbrio, a chamada Lei das Biografias, já aprovada no plenário da Câmara dos Deputados e em tramitação no Senado, poderá assegurar um justo marco regulatório para o tema.
Adriana Varejão, artista plástica: Sobre o decreto do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) que permite declarar de interesse público obras de coleções públicas ou privadas, o(a) senhor(a) não acha que o governo deveria focar na manutenção do acervo público que já existe?
Você tem razão. Tratamos do tema na página 123 do nosso programa: “O país tem perdido seu patrimônio artístico sem avaliar os danos que isto produz e sem ter a chance de estimular, antes da evasão, a aquisição de peças para coleções públicas ou privadas. Não se trata de penalizar ou engessar os negócios de colecionadores privados, como pretendeu o Ibram; trata-se, antes, de agir em sinergia, para que existam as condições adequadas de manter nosso patrimônio artístico próximo dos brasileiros”.
Carlo Carrenho, consultor editorial: O crescimento do comércio on-line tem sido cruel com as livrarias. Governos como o dos EUA valorizam o livre mercado e pouco fazem para proteger as livrarias. Mas a França exerce o preço fixo do livro e tem leis anti-Amazon. O seu governo tenderá para que postura?
Para uma postura com a seguinte estratégia: a) Aprimorar políticas para a produção e circulação do livro e oferecer bolsas de criação literária; b) Reduzir o custo dos livros; c) Fomentar a prática leitora, fortalecendo o Proler e o Plano Nacional do Livro e Leitura; d) Apoiar as bibliotecas públicas; e) Fortalecer o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas. Vamos retomar a discussão sobre o preço único do livro e o incentivo às pequenas e médias livrarias, que podem ser impulsionadas a partir do uso do vale-cultura.
Márcia Milhazes, coreógrafa: Que medidas concretas podem ser tomadas para que a cultura ganhe mais importância no governo?
Aproximar cultura e educação, de modo que a formação e o desenvolvimento de grupos e atividades culturais sejam estratégicos na introdução do ensino integral; fortalecer programas voltados à cidadania cultural, identidades e diversidade, como o Cultura Viva e ações para mestres da cultura popular e griôs. E priorizar as artes, área em que houve menos avanço nas gestões do PT no MinC. É preciso fomentar a criação de cadeias criativas e preservar a memória e o patrimônio histórico e cultural.
Myrian Dauelsberg, produtora cultural: Como o seu plano de governo vê o vale-cultura?
A lei do Vale-Cultura é uma importante conquista para garantir a cultura na cesta básica. Porém, apesar da lei aprovada, seu alcance ainda é pequeno. Como principal medida, buscaremos assegurar que todos os trabalhadores da iniciativa privada, com renda até cinco salários mínimos, bem como os professores da rede pública, tenham acesso ao vale-cultura. Outra medida será o fomento a ações pulverizadas e comunitárias de oferta de produtos culturais.
Domingos Oliveira, ator e diretor: Bom cinema e bom teatro são bisturi fino. Alcançam lugares aonde nada mais vai: a honestidade, a solidariedade, o patriotismo, a ética, o amor. São imprescindíveis na formação do homem. Para o(a) senhor(a), isso é importante ou um detalhe?
Isso é a alma de um povo. Exatamente por isso, a cultura faz parte de um dos seis eixos estratégicos de nosso programa de governo (eixo 3: Educação, Cultura e Ciência, Tecnologia e Inovação), pois entendemos que somente com a educação aliada à cultura e à inovação é que conseguiremos mudar o Brasil em sua plenitude.
Adailton Medeiros, diretor do Ponto Cine: O Brasil tem cerca de 2.700 salas de exibição para mais de 200 milhões de habitantes. Ou seja: mil a menos do que havia no meado da década de 1970. Qual é a sua proposta para ampliar o número de salas de exibição, descentralizá-las e desonerar o setor?
Experiências como o Ponto Cine (cinema comercial com salas de baixo custo, instaladas em bairros populares e com ingressos a preços acessíveis) deverão ser incentivadas via financiamento pelo BNDES ou arranjos criativos nos municípios (recuperação de salas de cinema fechadas, desoneração fiscal etc.) e garantia de ampliação de público com iniciativas como A Escola Vai ao Cinema, estímulo ao uso do vale-cultura para aquisição subsidiada de ingressos e programa de incentivo ao cineclubismo.
Lilian Barreto, produtora cultural: Quais são as suas prioridades para o Fundo Nacional de Cultura?
A parte da produção artística e da cultura que não encontra espaço no mercado. Ou seja: a formação cultural continuada; a experimentação, pesquisa e inovação estética; a cidadania cultural, a identidade e a diversidade; conservação e preservação do patrimônio cultural; manutenção de corpos artísticos estáveis (desde teatro de grupo até orquestras).
Leoni, músico: O Ministério da Cultura é o de menor dotação orçamentária do país. Qual é a sua posição em relação à PEC 150, que garante 2% do orçamento federal para cultura sem contingenciamento? Vai mobilizar a base governista para garantir sua aprovação rápida?
A PEC 150 é estratégica para a efetivação do Sistema Nacional de Cultura e encontra-se pronta para votação na Câmara dos Deputados. No entanto, sua votação tem sido constantemente adiada há quase dez anos. Nosso compromisso será ampliar o orçamento da cultura desde o começo do governo e avaliar as ações da área da cultura para incrementar e ajustar os recursos.
Marcos Villaça, escritor e imortal da ABL: Qual é a sua ideia em relação à interação povo e cultura? Distingue cultura de massa e cultura popular?
Nosso lema para o novo Ministério da Cultura a partir de 2015: “a massa ainda comerá do fino biscoito que fabrico” (Oswald de Andrade). Cultura é tudo. Cultura interage, promove trocas, sínteses. Cultura é identidade, mais alteridade, gerando solidariedade. Cultura é tradição e invenção ao mesmo tempo; é erudita e popular; é de massa e singular. Cultura é de todos e para todos.
Jorge Mautner, músico e compositor: Hoje, se investe muito imposto via leis de renúncia para financiar musicais do exterior em superproduções de milhões. Por que não investir esse dinheiro nos talentos do país, que em cada estado guarda tesouros de exuberância poética e filosófica?
Estamos em acordo Jorge Mautner. Nosso programa de governo (pg. 129) prevê “combinar diferentes mecanismos de financiamento, evitando que as leis de incentivo fiscal sejam a maior fonte de recursos do setor”. Assim fortaleceremos o Fundo Nacional de Cultura para que, em um primeiro momento, tenha, no mínimo, os mesmos recursos que os destinados à renúncia fiscal. Com isso, programas praticamente abandonados pelo atual governo, como o CULTURA VIVA e os Pontos de Cultura poderão ser retomados e fortalecidos, bem como o conjunto da criatividade de nosso povo, que será tratada como bem estratégico para o fortalecimento de nossa identidade e diversidade, o que vai muito além de uma simples redução à condição de mercadoria.
Amir Haddad, diretor de teatro: Acredita que a Lei Rouanet contribuiu para uma mais justa distribuição de verbas públicas? Dinheiro público, manipulado por particulares, chega a todos igualmente e honestamente? Uma cidade é para quem vive nela ou para quem vive dela?
A chamada Lei Rouanet é analisada em nosso programa (pg. 129): “No que concerne ao financiamento, temos de considerar ainda que o universo da cultura é heterogêneo, composto por alguns setores lucrativos e outros necessariamente deficitários; alguns agentes aptos a competir no mercado e outros sem chances de inserção comercial. Há que combinar diferentes mecanismos de financiamento, evitando que as leis de incentivo fiscal sejam a maior fonte de recursos no setor.”
Eduardo Barata, produtor cultural: Desde a sua criação, a Lei Rouanet nunca foi operacionalizada de uma forma eficiente pelo Ministério da Cultura, deixando o proponente sem informação e detalhamento dos projetos. O Procultura possui uma estrutura muito mais complicada e complexa, com várias comissões e departamentos. Se até hoje, em mais de 20 anos, a Rouanet não foi operacionalizada pelo governo da forma esperada, como os senhores pretendem implementar esta detalhada nova lei? Na opinião dos senhores de quem é a responsabilidade pela distorção da Rouanet: do governo, do proponente ou da iniciativa privada?
De fato, a lei Rouanet, passados mais de 20 anos de sua aprovação, tem sérios problemas de operacionalização, tanto na fase de aprovação dos projetos, quanto na da prestação de contas. Há um conjunto de responsabilidades, seja do governo ou proponentes e iniciativa privada. Se, de um lado, o ProCultura poderá resolver várias distorções na lei, por outro, poderá agravar problemas operacionais, burocratizando o processo. Nossa intenção é analisar a lei em seu atual estágio (ainda sem aprovação no congresso) de modo a dar agilidade em sua implementação, como por exemplo: a partir do Sistema Nacional de Cultura, permitir que estados e municípios que também contam com leis de incentivo, possam analisar e aprovar projetos (com abrangência local e até determinado valor) à Lei Rouanet.

Maranhão e Piauí têm maiores percentuais de intenção de votos para Dilma Rousseff

    Depois do Piauí é o Maranhão o estado onde a intenção de voto para a reeleição da presidente Dima Rousseff tem o maior percentual, segundo pesquisa realizada pelo Ibope.     São 60% dos eleitores que dizem votar na petista, enquanto que Marina tem 19% e o tucano Aécio apenas 6%. No Mato Grosso e Roraima, Dilma tem o mais baixo percentual: 35%. Segundo o instituto, em cinco estados Marina está na frente, entre eles São Paulo.
Veja tabela sobre pesquisa de intenção de votos para presidente:


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Marina Silva e a governabilidade - ALFREDO SIRKIS


Só uma presidente que tenha o dom do diálogo poderá tecer uma aliança em torno da estabilidade econômica e da inclusão social
    Na medida em que se revela a possibilidade de uma vitória de Marina Silva (PSB) nas eleições presidenciais deste ano, é natural que apareça a discussão sobre suas condições de governabilidade, uma questão perfeitamente legítima.
    Marina deu um importante passo quando anunciou que almeja um único mandato. Podemos contar com o compromisso de que ela não vai "fazer o diabo" para emplacar um sucessor. Essa postura republicana lança bases para uma governabilidade distinta desse voraz apego ao controle da máquina pública do PT e de seus aliados. Rompe com a obsessão da reeleição inaugurada na era tucana.
    Esse desapego à permanência indefinida no governo, além de ser uma revolução cultural na vida política brasileira, é elemento pacificador numa era muito raivosa. Mas, e a maioria parlamentar? É curioso levantarem isso, pois ninguém teve até hoje uma base parlamentar formal tão confortável quanto a presidente Dilma Rousseff.
    O PT tem menos de um quinto dos deputados e vive em crise conjugal permanente com seu grande aliado, o PMDB, esse ectoplasma político. A situação de Aécio Neves (PSDB), caso eleito, também seria complicada, pois a bancada tucana não ficará maior que a do PT e contarão com uma hostilidade feroz deste, de sua máquina sindical e de seus "movimentos sociais", num ano economicamente difícil como se anuncia que 2015 será.
    Com o DEM, seu aliado tradicional, longe da pujança dos anos Fernando Henrique Cardoso, o Congresso Nacional estará muito mais pulverizado. Seu grande parceiro de governabilidade seria, provavelmente, o PMDB. As incertezas de governabilidade não são apanágio de Marina, mas um problema estrutural da política brasileira, próprio do sistema eleitoral de voto proporcional personalizado que temos. O chamado "voto jabuticaba".
    A reforma política pela qual me empenhei com uma proposta de voto distrital misto, plurinominal, limitação e diversificação de fontes dos gastos de campanha, sem a estatização pretendida, até hoje não foi viável. A governabilidade terá que ser concebida na atual saia justa.
    Desde 2010, propugnamos com Marina o "realinhamento histórico" que incluiria uma espécie de Pactos de Moncloa (acordos de 1977 entre governo e partidos espanhóis durante a transição democrática), envolvendo prioritariamente os irmãos-inimigos da nossa social-democracia, PT e PSDB, além de figuras respeitáveis de outros partidos.
    É compreensível que, a priori, rejeitem o realinhamento, sobretudo no calor da campanha que disputam conosco. Eventualmente, consumado o que era antes inimaginável, viveremos uma nova situação.
    Opor-nos a ambos e criticar seus limites não significa não reconhecer seus méritos respectivos na estabilização da moeda, no controle da inflação, no início e depois na consolidação de uma rede de proteção social, algum avanço na educação e redução do desmatamento.
    Só uma presidente que tenha o dom do diálogo e da construção, uma capacidade de sedução, poderá eventualmente tecer uma aliança assim em torno da estabilidade econômica, da inclusão social e do desenvolvimento sustentável.
    A aparente quadratura do circulo da governabilidade fica menos absurda se visualizamos por trás das siglas as pessoas reais com as quais desejamos trabalhar pelo Brasil, nossas histórias comuns, os sonhos e esperanças parecidos que tivemos em diferentes momentos da luta pela construção da nossa tão imperfeita democracia.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Caetano Veloso: Marina é esboço de um novo Lula

Por Caetano Veloso*
    As maluquices crescem e proliferam em reação à força eleitoral de Marina. Rogério César de Cerqueira Leite repete que ela é criacionista, sem que ela nada tenha dito que justificasse tal conclusão. Os católicos também seguem a Bíblia e nem por isso se diz que Frei Beto ou Gilberto Carvalho são criacionistas ou que afirmam que o mundo foi criado há poucos milênios. Mesmo de pessoas mais sensatas li textos que tomam Marina como risco de fundamentalismo. Mas como? Uma mulher que tem, com mais clareza e firmeza do que todos os outros postulantes, falado sobre o sentido do Estado laico!
    Uma carreira política em que se vêem as discussões que se passam na mente da militante, da vereadora, da ministra, da senadora, da candidata – sem que se perca a certeza da coerência íntima da pessoa! Faz sentido querer-se reafirmar a gratidão pelos conseguimentos do PT no poder; também é certo ter esperanças na sensatez do candidato do PSDB, com o economista indicado para a pasta da Fazenda apresentando, em entrevistas, planos sensatos de superação do que parece ser o beco-sem-saída em que entrou a política econômica petista. Mas nada disso dá o direito a ninguém de desconsiderar a seriedade com que Marina se comporta sempre – e desde sempre.
    Marina não é nada de Collor nem nada de Jânio. Marina é o esboço de um novo Lula. É o organismo Brasil movendo-se internamente para metabolizar novos conteúdos. Esses novos conteúdos têm relação com os velhos – às vezes sentidos como eternos – problemas brasileiros: a desigualdade, a sociedade hierárquica, o atraso.
    Entendo a reação de Jean Willys ao recuo, no programa de Marina, quanto a temas cruciais dos grupos LGBT. Sempre me senti mais identificado com os gays do que com os caretas. Mas nem de longe isso me abala em minha decisão de votar em Marina. Os recuos no seu programa não a colocam em posição menos progressista do que a de seus oponentes. E Marina é tão maior promessa! Por que não ter coragem de apostar nela? Se eu pudesse influir, diria: VOTE EM MARINA. VOTE EM FREIXO. VOTE EM JEAN WILLYS.
*O texto de Caetano Veloso foi publicado pela equipe de Marina Silva nas Redes Sociais como conteúdo público e está sendo reproduzido pelo Congresso em Foco sem qualquer alteração.

sábado, 6 de setembro de 2014

Fogueiras da Razão - DEMÉTRIO MAGNOLI


Fundamentalistas querem substituir o livro das leis pela Lei do Livro. Marina não é, portanto, fundamentalista

    Política, ao menos na democracia, é diálogo. A condição para o diálogo é a disposição genuína de ouvir --isto é, de mudar de ideia. O fanático não dialoga, prega. Ele pretende converter o interlocutor, mas não contempla a hipótese de rever suas próprias convicções. No fundo, almeja um poder absoluto: moldar o outro segundo o figurino de crenças que selecionou como verdadeiro. O artigo "Desvendando Marina", de Rogério Cezar de Cerqueira Leite (Folha, 31/8), não desvenda a candidata do PSB/Rede, mas atesta a virulência antidemocrática dos fanáticos da Razão.
    O articulista classifica Marina Silva como uma fundamentalista cristã. No universo da ciência política, o conceito de fundamentalismo religioso aplica-se às correntes que exigem a subordinação das instituições públicas e da vida civil aos dogmas de uma fé. Os fundamentalistas querem substituir o livro das leis (o contrato constitucional) pela Lei do Livro (a Bíblia, o Corão ou a Torá). Marina não é, portanto, uma fundamentalista --e, assim como a teoria da evolução, tal conclusão não é uma questão de opinião.
    O pensamento científico assenta-se sobre modelos e evidências, abrindo-se ao teste da falseabilidade. Do alto de uma torre erguida com a argamassa da arrogância, o fanático da Razão viola as regras que simula seguir, operando por espasmos de subjetividade. Cerqueira Leite escandaliza-se com as "crenças íntimas" de Marina, mas nem tenta apontar nas propostas políticas da candidata alguma contaminação fundamentalista. Marina defende a laicidade do Estado, sugere submeter o tema do aborto a plebiscito e alinha-se com a decisão do STF sobre a união civil de homossexuais. São posições semelhantes às de Dilma e Aécio, que também não reproduzem o catecismo do movimento LGBT. No fim, o "desconforto" do Inquisidor da Razão é com a liberdade de religião.
    As grandes fogueiras da Igreja apagaram-se no passado, ainda que suas brasas continuem queimando aqui e ali. No Ocidente, as fogueiras do último século foram acesas por Estados totalitários que falavam a linguagem da Razão. A URSS de Stálin e a China de Mao eliminaram milhões de pessoas em nome da Ciência da História, que decifrara o enigma do futuro da humanidade. A Alemanha de Hitler construiu as engrenagens do exterminismo sobre o alicerce da Ciência da Raça, que prometia a salvação nacional no Reich de mil anos. O fanático da Razão, tanto quanto o da religião, quer um governo que administre as almas, não as coisas. Na democracia, contudo, as almas não fazem parte da esfera de autoridade do Estado.
    A pecha de fundamentalista religiosa lançada contra Marina circula no submundo da internet, propagada por blogueiros governistas sustentados por patrocínios de empresas estatais. Simultaneamente, e de acordo com uma calculada lógica da duplicidade, o governo ensaia reativar um projeto de lei que concede benefícios tributários às igrejas. Mas o Inquisidor da Razão parece não sentir "desconforto" com a privatização partidária da máquina pública nem com a transgressão do princípio elementar da separação entre Estado e religião. Ele se incomoda, de fato, com "crenças íntimas".
    Sou agnóstico. Acho graça nos mitos religiosos da Criação --e aborreço-me com pregadores que têm a exagerada pretensão de retificar minhas "crenças íntimas". Só existem superficiais diferenças de linguagem entre eles e os intragáveis pregadores do ateísmo, que querem matar Deus, erradicando-o da mente dos seres humanos. Uns e outros sonham com um Estado inquisitorial, aparelhado para desentranhar as "ideias daninhas" que envenenam seus concidadãos.
    Marina já não é uma esfinge. A candidata divulgou um extenso programa de governo, atravessado por tensões e não isento de contradições. Melhor criticá-lo que acender uma fogueira com os galhos secos da árvore da intolerância.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

O segundo turno chegou - ELIANE CANTANHÊDE

BRASÍLIA - O segundo turno já começou. Isso ficou evidente no debate desta segunda (1º/9) entre os presidenciáveis, quando Dilma Rousseff perdeu os pruridos e partiu para cima de Marina Silva, e Marina Silva não se fez de rogada e bateu firme no governo da adversária.
    Em segundo plano, o tucano Aécio Neves estreou uma nova fase. Em vez da polarização PT-PSDB, com Marina no meio, o que se viu foi Dilma e Marina frente a frente, com Aécio tentando sobreviver entre as duas favoritas. Ele centrou fogo em Dilma, deixando à presidente a missão de bater em Marina. No fim, colocou-se como opção ao "fracasso" do governo e às "contradições" de Marina.
    Dilma, enfim, cedeu à pressão de Marina para reconhecer os erros: "Pode parecer que estou plenamente satisfeita. Não estou". E Marina, enfim, saiu da zona de conforto em que trafegava desde 2010, mas se saiu bem ao explicar os pagamentos que recebe por palestras e ao se equilibrar entre o tripé econômico desprezado por Dilma e os avanços sociais. De avião, ninguém falou.
    Propaganda na TV funciona a favor das reeleições porque todo governante, por pior que seja, tem sempre o que mostrar: a obra tal, o programa qual. Mas debate funciona contra, porque todo governante, por melhor que seja, também tem o que esconder. E o que é vantagem se transforma em desvantagem: os adversários se unem para apontar o dedo contra quem está no poder.
    Debate é forma e conteúdo. Marina estava firme, segura, mantendo um discurso que tem pouco de concreto, mas fala à alma de uma grande maioria sedenta por mudança.
    Alguém precisa dizer a Dilma, se é que Dilma sabe escutar, que a cara mal humorada, às vezes parecendo vermelha de raiva, não ajuda a convencer o telespectador nem a humanizar a sua figura. Ainda mais se, na propaganda do PT, atua como a vovó boazinha que faz macarrão e, no debate, assume o ar de lobo mau.
    Não muda nada, mas é divertido.

domingo, 31 de agosto de 2014

Propostas de Marina para o Nordeste

Números do Nordeste
26,8% É o percentual de eleitores que vivem no Nordeste. No total, são 38,2 milhões de pessoas
13,4% Era o percentual de participação do Nordeste no PIB nacional no fim de 2013. Dados do IBGE.
7,2 milhões dos quase 13 milhões de analfabetos do Brasil estão concentrados no Nordeste. O dado é do IBGE (2012).

terça-feira, 15 de abril de 2014

Chapa de oposição - MERVAL PEREIRA

    A definição de que a chapa PSB e Rede é uma resposta ao autoritarismo do governo petista, que tentou inviabilizá-la de todas as maneiras, é uma postura de combate do ex-governador Eduardo Campos e mostra bem a linha de atuação que ele e a ex-senadora Marina Silva terão durante a campanha eleitoral.
    Com o lançamento da chapa Campos-Marina, fica definido um dos principais postulantes pela oposição à sucessão da presidente Dilma, acabando a especulação de que Marina não aceitaria um posto inferior na chapa, ela que estaria em 2º lugar na corrida presidencial se fosse candidata isolada.
Marina aceitou ser vice de Campos, mas não se considera em plano inferior politicamente, tanto que disse que caminhará lado a lado com ele. Essa visão, antes de ser um complicador para a composição da chapa, é uma solução para que os eleitores marinistas não se sintam desprestigiados e possam trabalhar para a transferência de votos de Marina para a chapa que o ex-governador de Pernambuco encabeça.
    Campos, em entrevista prévia ao lançamento da chapa pura - Marina filiou-se ao PSB depois de ter sido negado o registro da Rede e repetiu ontem as críticas ao governo por tentar inviabilizá-la -, teve uma boa saída para explicar sua dissidência, depois de ter participado dos dois governos Lula e dos primeiros anos do de Dilma: Esse governo decepcionou não só a mim, mas a muitos dos outros milhões que nele votaram .
    A outra postura que marcará a campanha da dupla foi definida pelo economista Eduardo Gianetti: essa chapa é a terceira via, uma alternativa para os eleitores que já estariam cansados da polarização entre PT e PSDB que vem marcando as disputas para a Presidência desde 1994. Seguindo a linha de seus líderes, Gianetti disse que os avanços construídos tanto por FHC quanto Lula não foram seguidos por Dilma, frustrando assim o eleitorado.
    Caberia agora a Campos e Marina dar prosseguimento a esses legados, com uma visão nova que incorporaria o melhor dos dois partidos. Essa postura, se levada ao pé da letra, pode isolar a chapa Campos e Marina, que ficaria sem apoios políticos para o segundo turno. Como pedir o apoio dos tucanos se eles forem alvos de ataques no primeiro turno?
    Na carta de princípios esboçada está o compromisso de não fazer ataques pessoais aos adversários, o que poderá levar a que tanto Campos quanto Marina façam suas críticas no campo programático, o que seria uma novidade em eleições presidenciais recentes.
    Foi esse estilo, porém, que levou Marina a ter grande votação em 2010, sem atacar mesmo a então candidata Dilma, com quem se desentendeu no governo Lula. O próprio Lula comentou recentemente que compreendia a dissidência de Marina, pois acompanhou suas desavenças com Dilma.
    Colocada como de oposição, a candidatura de Campos caminha para tentar receber a maioria possível de votos dos eleitores de Marina e terá na vice uma candidata atuante, que poderá ocupar palanques alternativos durante a campanha.
    Há na política a definição de que vice não dá voto a ninguém, mas pode tirar. Marina está desafiada pelas circunstâncias eleitorais a provar o contrário quanto à transferência de votos. Mas terá de ter cuidados para não tirar votos de Campos em setores delicados na relação dos dois, que, segundo ela, ainda está sendo construída.
    O agronegócio é um desses temas delicados que podem provocar desavenças na campanha, assim como a relação com os evangélicos. Marina citou ontem o fato de ser uma mulher de fé , mas garantiu que não faz do púlpito palanque. Tem a seu favor a campanha de 2010, em que não usou a religião para se promover, mas mesmo assim recebeu uma votação maciça dos evangélicos.
    O problema para ela nesta eleição é que o pastor Everaldo (PSC) está em campanha assumidamente como candidato evangélico, e, quando um irmão é candidato, a maioria dos votos vai para ele, como demonstram as pesquisas do professor Cesar Romero Jacob, diretor do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio, que lançou o e-book Religião e Território no Brasil: 1991/2010 , da Editora PUC.
    Ao analisar as transformações no perfil religioso da população, com o crescimento do número de evangélicos no país, esse trabalho é útil para o entendimento do cenário eleitoral. Marina não fez campanha como evangélica, mas as igrejas evangélicas fizeram campanha para ela, o que significou boa parte de seus votos, que agora serão disputados pelo pastor Everaldo.