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domingo, 13 de julho de 2014

A Copa das Copas - FERREIRA GULLAR


O que vai acontecer agora com aqueles milhões de torcedores que acreditavam em nossa seleção?


    Deixei para escrever esta crônica depois da semifinal entre o Brasil e a Alemanha. A principal razão era que, como esta crônica é publicada no domingo, isto é, hoje, dia da decisão final da Copa do Mundo, já teria uma ideia do desfecho que eu mais temia: uma segunda derrota de nossa seleção, jogando em casa, como ocorreu em 1950.
    Não que, na minha opinião, o Brasil fatalmente estaria na final. Nada disso, mas, em futebol, como se sabe, tudo é possível. Conforme declarou o técnico da seleção argentina, após a derrota do Brasil, na terça-feira, "futebol é o esporte mais ilógico que existe". De fato, perder para a Alemanha, no meu entender, era previsível, mas não de 7 a 1.
    Fiz bem, portanto, em esperar o resultado do jogo Brasil X Alemanha para escrever esta crônica. É que, conforme o leitor teria deduzido de comentários anteriores, eu temia que algo de muito ruim acontecesse. Achava mesmo que passar pela seleção alemã seria difícil, quase impossível.
    Isso pensava meu lado racional, mas o outro lado, certo de que em futebol tudo é possível, admitia que talvez a gente passasse para a final. Claro que minha maior preocupação, neste caso, seria a derrota na última partida da Copa e a perda do título.
    Veja bem, se a derrota em 1950, por apenas 2 a 1, deixou um trauma que dói até hoje, imaginem a repetição disso no Brasil de hoje, que decidiu realizar a Copa das Copas?
    Não queria nem pensar nisso, mas não sei se o que aconteceu não foi pior: não chegamos sequer à final e levamos uma lavada de 7 a 1, num jogo em que a nossa seleção parecia um time amador enfrentando uma seleção de verdade.
    Confesso que, quando vi os alemães, depois do primeiro gol, dominarem inteiramente a partida e, em poucos minutos, marcarem mais três gols, temi pelo pior: eles vão nos vencer de dez a zero ou mais!
    De fato, nunca tinha vivido uma situação semelhante. O que vai acontecer com aqueles milhões de torcedores que acreditavam em nossa seleção e que agora a veem correr como baratas tontas atrás da bola que os alemães dominam como querem?
    O primeiro tempo terminou com o escore de 5 a zero. Um vexame, mas também uma tragédia.
    Alguns minutos depois, comecei a ouvir na minha rua um rumor estranho. É que moro próximo à praia de Copacabana, onde há um telão transmitindo o jogo. O rumor que ouvi vinha de uma multidão que deixava a praia para não ter que assistir ao segundo tempo daquela derrota inacreditável.
    O mesmo ocorreu no Mineirão, onde o jogo se realizava: grande parte dos torcedores deixou o estádio antes de começado o segundo tempo da partida. Tive vontade de fazer o mesmo, mudar de canal e assistir a outro qualquer programa que nada tivesse a ver com aquela derrota patética.
    Mas não fiz isso, fiquei ali, perplexo, esperando o jogo recomeçar. Não que alimentasse qualquer esperança de reverter aquele escore; é que não podia fingir que estava indiferente ao que ocorria naquele estádio de futebol e dizia respeito ao país inteiro.
    Foi aí que me lembrei das declarações de Felipão e de Parreira, ambos afirmando que a vitória da seleção brasileira era certa. Segundo Felipão, não éramos pentacampeões por acaso e, se éramos pentacampeões, éramos melhores que os demais.
    Essas afirmações, na época, me pareceram absurdas, uma vez que não é título que ganha jogo e, sim, jogando é que se ganha o título.
    O Brasil é pentacampeão mundial porque, em determinados momentos, possuiu craques e times de alta qualidade e, por isso mesmo, quase imbatíveis.
    Mas ele meteu isso na cabeça dos nossos garotos e na cabeça de milhões de torcedores.
Na verdade, essa nossa seleção não é tão boa assim. Possui craques como Neymar, David Luiz e Thiago Silva, mas não um time à altura de nossas seleções vitoriosas, constituídas de craques que, na época, estavam entre os melhores do mundo.
    A verdade é que a seleção de agora chegou às semifinais a duras penas, indo para a prorrogação e para os pênaltis. Jamais acreditei que ela ganharia a Copa.
    Pois bem, hoje, Alemanha e Argentina decidem quem ficará com o título de campeão do mundo. Ontem, o Brasil deve ter disputado com a Holanda o terceiro lugar. Espero que tenha tido melhor sorte.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Inútil paisagem - PEDRO CUNHA E MENEZES


Para preservacionistas, visitantes são um mal, destroem a natureza e devem ser desestimulados a passear nas áreas dos parques que, por lei, foram designadas para esse fim

    Estamos na reta final da Copa do Mundo, aquela mesma para a qual foi prometido um legado. Na área da conservação ambiental, esse legado foi projetado para ser entregue em forma de uma melhor e mais abrangente estrutura de visitação. Não em todas as 313 unidades de conservação mantidas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pelas áreas protegidas no âmbito federal, mas só no seleto grupo denominado de “Parques da Copa”.
    Os projetos não chegavam a ser exatamente ambiciosos. Eram realistas e visavam, sobretudo, a melhorias nas vias de acesso, nos centros de visitantes, nas trilhas e na sinalização. Nunca houve dinheiro do orçamento da União especificamente destinado à rubrica “Parques da Copa”, mas entidades como o Ministério do Turismo, o Sebrae e uma prefeitura de município lindeiro (vizinho) ao Parque Nacional de Aparados da Serra chegaram a se oferecer para aportar recursos com o intuito de fazer o projeto, ou algo similar a ele, avançar.
    Também houve um esforço, no próprio ICMBio, para aparelhar os parques com sistemas de trilhas sinalizadas e manejadas. Tal projeto, cujo custo é baixíssimo, poderia ser feito com recursos e pessoal próprios e deixaria algumas unidades com opções de recreação na natureza similares às de parques mundo afora. Entre outras iniciativas a custo baixo, estava projetada a abertura para passeios de bicicleta das estradas internas do Parque Nacional de Brasília, que, apesar de ter sido criado há mais de 50 anos, inexplicavelmente continua com cerca de 80% de sua área fechados à visitação.
    Agora na Copa e, descartadas as exceções que confirmam a regra, nada foi feito. “Governo incompetente!!!”, clamarão logo os críticos de plantão. Não se trata de incompetência deste governo. O problema não é de hoje nem começou na atual gestão. Suas causas são muitíssimo mais graves e vêm se mantendo há muito mais tempo. Trata-se de uma questão de competência de alguns técnicos da área da conservação, que têm se perpetuado há décadas em cargos de comando no ICMBio e nas instituições que o precederam na tarefa de (supostamente) cuidar de nossas unidades de conservação.
    Esse grupo, conhecido como preservacionista, não acredita em visitação aos Parques Nacionais como ela é feita no resto do mundo. Tem a convicção de que os visitantes são um mal, que destroem a natureza, e que devem ser desestimulados a passear nas áreas que, por lei, foram designadas com esse fim (segundo a legislação brasileira, Parque Nacional, “tem como objetivo básico a preservação de ecossistemas naturais de grande relevância ecológica e beleza cênica, possibilitando a realização de pesquisas científicas e o desenvolvimento de atividades de educação e interpretação ambiental, de recreação em contato com a natureza e de turismo ecológico”.
    Assim, ao longo das últimas décadas, valeram-se de um instrumento normativo, chamado Plano de Manejo e, por meio dele, têm subvertido os objetivos explicitados na lei. Ao utilizar uma ferramenta legal conhecida por zoneamento, têm subtraído o direito à visitação de parcelas expressivas de nossos parques nacionais, criando o que se convencionou chamar de “parques-fortaleza”. Como resultado, hoje temos nos 70 Parques Nacionais brasileiros uma malha de trilhas sinalizadas e manejadas que não chega a 300 quilômetros. Enquanto isso, nosso antecessor na organização de Copas, a África do Sul, tem num único parque de apenas 20 mil hectares (Parque Nacional da Montanha da Mesa) mais de 600 quilômetros de trilhas sinalizadas, com seis abrigos de montanha em funcionamento (mais que o Brasil inteiro).
    O resultado disso é que a visitação dos Parques Nacionais do Brasil é pífia para a quantidade de hectares que administramos. Enquanto o dogma dos “parques-fortaleza” continuar, não haverá recursos nem projeto capazes de transformar os parques brasileiros em destinos reais de ecoturismo. Como se diz no movimento montanhista brasileiro: “Quer fazer trilha acampando durante vários dias e noites? Mantenha seu passaporte em dia!”

domingo, 6 de julho de 2014

Ainda bem que não adivinho - FERREIRA GULLAR

Minha ansiedade na espera desse jogo foi ainda maior do que no anterior; quanto mais alto, maior a queda

    Você, leitor, já sabe o estado em que fico quando a seleção brasileira vai jogar e, pior ainda, quando está jogando. Pode, portanto, imaginar quanto me custou esperar pelo jogo com o Chile, que me parecia um bom time, com uma capacidade ofensiva preocupante.

    É verdade que, como fazia 12 anos que os chilenos não conseguiram nos vencer, peguei-me nesse argumento para me convencer de que iríamos derrotá-los. Mas, como se sabe, essa foi uma convicção difícil de manter, particularmente depois que o Chile fez um inesperado gol de empate.
    Senti o baque e a seleção também, porque, depois disso, parecia perdida em campo. Os chilenos mantinham a posse de bola e avançavam articulados para o nosso gol.
    Embora insistisse em dizer a mim mesmo que a nossa vitória era inevitável, essa certeza foi se tornando cada vez mais difícil de manter. Para piorar a situação, os chilenos impediam Neymar de jogar, mantendo dois, três jogadores, em cima dele, que o empurravam, chutavam, derrubavam. Como se não bastasse, Fred recebeu uma bola em frente ao gol chileno, quando o goleiro estava caído do outro lado, e chutou para fora.
    A sorte (isto é, o acaso) parecia conspirar contra nós e, além disso, o juiz da partida também se tornou nosso adversário. E que adversário, já que seu poder, dentro de campo, é absoluto. Assim foi que não marcou um pênalti indiscutível em Neymar e anulou um gol absolutamente legítimo do Hulk.
    Naquele instante, eu havia saltado da cadeira e gritado "gol!", quando me dei conta de que algo estranho havia acontecido.
    O gol fora anulado, porque o juiz achou que Hulk matara a bola no braço e não no ombro como de fato aconteceu. E além disso, ele, que estava errado, puniu quem estava certo, dando-lhe um cartão amarelo. Acreditem que não sou aquele tipo de torcedor que, quando perde, culpa o juiz por tudo, mas esse cara parecia querer nos derrotar a qualquer custo.
    E ele não parou aí, passou a apitar falta toda vez que um jogador do Chile, ao disputar a bola, caía no chão. Os chilenos, vivos como são, passaram a se jogar assim que perdiam a bola. Nunca vi tantas faltas num jogo só. Daquele jeito, pensei, era impossível ganhar a partida.
    Mas, justiça se faça, ele não foi o único árbitro, nesta Copa, a cometer tantos erros. Vários outros, também os cometeram e também influíram no resultado da partida, pois não precisa deixar de apitar um pênalti para que o resultado seja outro. Também apitar uma falta que não houve pode impedir que um gol aconteça. Enfim, acho que a equipe de árbitros da Fifa deve ser reciclada.
    De qualquer modo ganhamos, graças a Júlio César, que Felipão convocou contra a opinião de muita gente. "Esse Felipão --me disse um desses entendidos de boteco-- já não sabe o que faz, do contrário não teria convocado para a seleção um goleiro decadente, como o Júlio César, que foi reserva de um time inglês de segunda categoria." Respondi-lhe que, na próxima Copa, o indicaria para ser o técnico da seleção brasileira.
    Tudo bem. Hoje é domingo e sexta-feira passada, houve o jogo do Brasil contra a Colômbia, ou seja, depois que já tinha entregue esta crônica ao jornal. Notadamente, como você pode imaginar, minha ansiedade na espera desse jogo, foi ainda maior do que no anterior, não só pelo desempenho da Colômbia até então --ganhou fácil do Uruguai-- mas porque, como diz o ditado, quanto mais alto se sobe, maior a queda, desde que se caia, claro.
    Se caímos ou não nessas quartas de final, não posso saber agora, quando escrevo esta crônica, pois não sou adivinho. Na minha insensatez de torcedor, porém, prefiro cair de mais alto que de mais baixo. De modo que, se tivermos passado pela Colômbia, iremos às semifinais e, se vencermos de novo, iremos à final. Estaremos, pois, quase no ponto mais alto a que se pode chegar nesta escalada. Portanto, se vencermos, o Brasil inteiro será uma festa mas, e se perdemos?
    Já calculou o golpe que será repetirmos a derrota de 1950, perdendo de novo em casa a partida que, desta vez, nos tornaria hexacampeões? Não quero nem pensar. Mas, por outro lado, se formos derrotados antes (se é que já não o fomos), a Copa perderá toda a graça. Para mim, pelo menos.
Da Folha

sábado, 5 de julho de 2014

Copa do Mundo 2014 no Brasil: Ora, mas me compre um 'bode' Neymar!

Bruno Balacó
Carneiro Neymar e seu Juvenal (esquerda) fazendo
 a festa dos torcedores
    Copa do Mundo é tempo de oportunidades. Vale tudo para juntar uma grana extra nesse período. Seu Juvenal Ribeiro, de 70 anos, teve uma ideia inusitada. Vestiu um de seus carneiros com a camisa de Neymar e foi passear com o bichinho na Arena Castelão. Percebendo o forte assédio da torcida pelo animalzinho, logo teve a ideia: 'vou ganhar dinheiro com isso'.
    Então, decidiu cobrar dos interessados em registrar uma foto ao lado do carneiro de estimação.
Um close no personagem: Neymar, de 3 meses
    "A foto é R$ 2", avisa aos torcedores. E não faltavam clientes para tirar foto com Neymar, como o animal foi batizado. Um dos grupos que bateu foto com o bichinho não hesitou em perguntar.
   "Se ele é o Neymar, cadê a Bruna Marquenzine (namorada do atleta)", brincou um torcedor. "Ah, faltou a Marquezine", respondeu, em bom humor, seu Juvenal, que é morador do bairro Barroso II, de Fortaleza. 


NÃO TEM PREÇO!

Seu Juvenal passeando com Neymar em busca de clientes
    Encantados com 'Neymar', um grupo de torcedores de Belém chegou a fazer uma oferta para comprar o carneiro. Seu Juvenal se mostrava irredutível ao afirmar que o bichinho "não tem preço".
    O dono do simpático animal chegou a recusar até um par de ingressos em troca do bicho. "Caramba, ele recusou", disse incrédulo o autor da oferta, para em seguida soltar uma gargalhada.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Charge do dia - CABALAU ( O Estado do Maranhão)


Depois da Copa - VINICIUS TORRES FREIRE

País toma anestesia local, não geral, faz festa com o futebol, mas o eleitor continua insatisfeito

    A BRISA ALEGRE da Copa até agora festiva dissipou os miasmas que deixavam o clima pesado até faz muito pouco: 12 dias. Mas os maus humores terão escorrido para o ralo? O que será quando a Copa acabar, o que, esperamos, ocorrerá com vitória em 13 de julho?
    A anestesia futebolística não foi geral, mas local. Os insatisfeitos com governo, política e economia ganharam adesões, dizem as pesquisas. Mas até para militantes é difícil viver em tensão permanente. A maioria de nós parece ter resolvido fazer um pouco de festa; não mudou de opinião.
    Nos últimos meses, falamos muito de política e governo por meio de símbolos tais como a Copa ou, entre minorias, na guerra "ideológica" desencadeada por questões que foram dos rolezinhos aos insultos contra Dilma Rousseff.
    Pouco antes, foi comum se tratar de insatisfações diversas, quando não adversárias, por meio da crítica genérica dos "políticos", de um Estado distante, que não oferece serviços públicos, quando não é apenas fonte de opressão física.
No rescaldo de um ano de revolta, os partidos e candidatos maiores apareceram mais desprestigiados que de costume, vide a quantidade de "votos de protesto" (nulo, branco, nem aí etc).
    Findo o show da Copa, começa sem mais o show da eleição. Se a insatisfação de fundo continuar, contra governos e políticos em geral, quais contornos terá? Ainda haverá "rua"? Militantes, como os sem-teto e os do passe livre, em São Paulo, não vão submergir sem mais. Difícil é, a princípio, imaginar que o combustível das manifestações não tenha diminuído desde junho do ano passado e depois da Copa.
    Os fatores de irritação mais difusa, cotidiana, não desapareceram, pelo contrário. Ainda que o mau humor econômico tenha sido exagerado em abril e maio, a economia real declina de fato e mais do que o esperado, inclusive no emprego. A mais recente previsão dos economistas privados estima que o PIB deve crescer menos que 1,2%, quase estagnação.
    Há chance razoável de notícias simbolicamente ruins em julho e agosto (não serão boas de modo algum, mas devem soar ainda pior): inflação talvez acima do teto da meta, PIB zero, demissões em indústrias visíveis, com sindicatos fortes. Haverá algum motivo e muita oportunidade para o acirramento de ânimos políticos.
    O governo decerto vai contra-atacar. Vai lançar o Minha Casa, Minha Vida fase 3 ainda em julho. Vai trombetear para o público menos informado e pobre os programas sociais que patrocinou, muito extensos, goste-se ou não deles.
    Para o eleitorado minoritário mais dado à política-politiqueira, haverá mais motivos para decepção ou nojo, dada a barafunda de alianças cruzadas entre partidos. A oposição federal alia-se regionalmente a aliados nacionais do governo, entre outras indignidades. Pequenos e provincianos, os candidatos maiores não se dão conta do tamanho da repulsa que realimentam.
    Não há motivos para acreditar que a fervura baixe. Está mais difícil de saber como tal desgosto vai se expressar. Em ano de eleição nacional, era de esperar que partidos maiores dessem sentido às revoltas mais comuns, ao menos. Só que não. Ainda, ao menos.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

As Copas do Brasil e as Copas no Brasil - ROBERTO DAMATTA

    Ganhamos cinco copas do mundo de modo indiscutível e, como dizia Nelson Rodrigues, insofismável. Na maioria das vezes, de modo devastador como em 58, 62 e 70. Essas vitórias todas, entretanto, não foram em terra brasileira, mas “lá fora” como se dizia quando o mundo ainda era grande e desconhecido. 
    Havia quem pensasse que Paris era a capital da Europa e que a Inglaterra era um continente. O ponto de vista reverso arrolava Buenos Aires como capital do Brasil. Eis um país desconhecido no qual se falava espanhol ou um idioma desconhecido, “o brasileiro”, como disse uma senhora inglesa com um ar sério e douto, muito apropriado aos britânicos, num programa de televisão da BBC realizado dos anos 80, sobre o Brasil, no qual eu contribui com o lado interpretativo. Nele, além de obviedades como racismo, favor, malandragem, clientelismo e música, falávamos desse futebol que evoluiu do “jeitinho” (que iguala) para o “você sabe com quem está falando?” (que suprime o reconhecimento do outro) dos pentacampeonatos. 
    Foi o futebol que - ao lado da Bahia de Jorge Amado, do cinema de Glauber Rocha e Cacá Diegues; e da bossa-nova de Tom Jobim - nos tirou da vala comum de um povo sem mapa, para nos reordenar num lugar superior no tal “concerto das nações” que eu tanto ouvia falar e, menino, cheguei a pensar que era uma orquestra a tocar a melodia triste de duas guerras mundiais e holocaustos promovidos pelos nazismos e stalinismos. A partir de 50, porém, o futebol consolidou o Brasil como dono de uma invejável cronologia futebolística.
    Curioso, para quem não pensa que, tanto no esporte quanto na democracia, derrota e vitória são os lados de uma mesma moeda, que tenhamos sofrido uma devastadora perda justamente na copa jogada no Brasil. É meu palpite que o jogo “em casa” fazia a mágica de suprimir no nosso mapa mental uma eventual derrota. A lição da Copa de 1950 foi que, no esporte, como na vida igualitária, há perderes e vencedores, o que não significa que os primeiros são inferiores aos segundos. É a partida, na sua dinâmica e feroz realidade quem diz - tal como sucede no mercado e nas eleições - quem é o vencedor.
    Perdemos então em 50, a copa no Brasil. 
    Copa, vale mencionar, que é também um espaço próximo da cozinha onde as louças nas quais comemos são guardadas e é um vaso covo em que bebemos líquidos e se refere à parte superior das árvores e do chapéu. Ademais, a expressão “fechar-se em copas” fala de uma pessoa amuada tal como ficamos em 1950, quando os nossos hermanos uruguaios levaram a copa e nós nos fechamos chorosos na derrota. Mas em 1958 e 62 renascemos nesta mesma taça, que acabou sendo nossa em 1970. Fomos seus ganhadores materiais definitivos, mas a perdemos vergonhosamente para ladrões que, corre o mito, venderam o seu ouro devidamente dissolvido no mercado das copas abandonadas por suas burocracias.
    Tudo isso para, com Ruy Castro, recordar que as taças eram mesmo copas ou copos elaborados, com os quais se bebia algo valioso ou sagrado. Não sei se por pedantismo ou palpite (provavelmente pelos dois), não deixo de associar as taças (ou copas) nas quais o time vencedor bebia a champanha ou o vinho da vitória, ao Santo Graal. Aquele cálice sacrossanto usado por Jesus Cristo na Última Ceia, no qual José de Arimateia (um rico senador e cristão secreto) colheu - diz a lenda - o sangue do Salvador, quando ele recebeu o golpe final de um decurião romano. 
    Sabe-se que o cálice faz parte de uma teia de lendas célticas que falavam no Rei Artur e numa idealizada e protodemocrática Camelot, cujo centro era a busca de objetos que simbolizavam a superioridade, legitimando-a. Nessa busca, surgem a espada, a coroa (transformada em halo nos santos) e a copa - todos ligados à pureza de coração e à espiritualidade enobrecedora. Artur, dizem os mitos, tira sua espada de uma pedra ou a recebe da Dama do Lago. Eis o que todos procuram, mas que a Dama do Lago somente entrega a um craque escolhido. Do mesmo modo, o Santo Graal que significaria “sangue real”, traria paz e prosperidade para o reino. 
    Para nós, pentacampeões, a taça da vitória, que hoje é um pesado troféu um tanto cafona na sua ostentação aurífica, seria a prova de que o nosso sangue mestiço é nobre e não o testemunho de fatal inferioridade. Ganhar a Copa no Brasil, em pleno território nacional, portanto, resgataria a tal prosperidade e a santa paz prometida pelo velho populismo esquerdista que, cada vez mais corrupto e dissimulado, tem desonrado muita coisa, menos - assim espero - o futebol.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

PM compra mais gás, balas de borracha e armas para a Copa

Entre junho de 2013 e abril deste ano, os órgãos de segurança pública compraram mais de 270 mil granadas e projéteis de gás lacrimogêneo e de pimenta e 263.088 cartuchos de balas de borracha de diversos tipos e modelos.
A munição química não letal adquirida seria suficiente para fazer mais de 819 lançamentos de granadas de gás e fazer 797 disparos de balas de borracha por dia no período.
O levantamento mostra um incremento nas aquisições pelos órgãos de segurança em 2014, principalmente devido ao temor de uma nova onda de manifestações durante a Copa do Mundo. Nos últimos 11 meses, foram comprados pelas PMs 113.655 granadas lacrimogêneo e 21.962 granadas de pimenta – 59% e 73%, respectivamente, adquiridos nos primeiros quatro meses deste ano.
Também foram comprados 134.731 cartuchos de gás de diversos calibres, que são jogados sobre multidões com lançadores de calibre 12, 38 e 40 para evitar que os policiais cheguem muito perto das pessoas. Os dardos podem cair no meio de massas a uma distância que pode variar entre cinco metros e 120 metros do atirador, em média.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Flávio Dino espera pedido de desculpas da Adidas

   
O presidente da Embratur, Flávio Dino
O presidente do Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur), Flávio Dino, disse hoje (26), em Brasília, que ainda espera um pedido de desculpas da empresa Adidas, responsável pelo lançamento de uma linha de camisetas alusivas à Copa do Mundo que apresentam imagens com apelo sexual. A empresa é uma das patrocinadoras oficiais do torneio de futebol.
     “Acho que ainda falta alguma coisa, um pedido de desculpas da empresa para o Brasil. Na verdade houve [apenas] um comunicado, dizendo 'retiramos a campanha'. Infelizmente, a Adidas não pediu desculpas formalmente, mas esperamos que o faça”. Presente no lançamento de uma campanha da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH) contra violência a crianças e adolescentes, Dino se referiu à linha de camisetas como um “desrespeito à sociedade e, especialmente, à dignidade da mulher brasileira”.

    Dino informou que enviou à Federação Internacional de Futebol (Fifa) e aos patrocinadores da Copa do Mundo um pedido para que mensagens como as veiculadas pela Adidas sejam evitadas. Além disso, solicitou que as entidades façam a divulgação do Disque 100, serviço brasileiro de denúncia contra maus-tratos a crianças e adolescentes.
    A ministra da SDH, Maria do Rosário, parabenizou a ação do Ministério do Turismo e da Embratur no caso, repudiando publicamente as camisetas lançadas pela empresa. “O Brasil não é destino de turismo sexual, não aceita a exploração sexual e essa atitude que o ministério e a Embratur tiveram foi justa com as mulheres e meninas do Brasil”.
Editor: Fábio Massalli