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segunda-feira, 19 de maio de 2014

Mudança e medo - RICARDO NOBLAT

"Determinados setores parecem desejar o fracasso da Copa, como se disso dependessem as suas chances eleitorais".
Lula, no jornal "El País"
Na última quinta-feira, ao receber para jantar no Palácio da Alvorada dez jornalistas esportivos, Dilma pôs um ponto final na discussão sobre se será ela ou Lula o candidato a presidente na eleição de outubro próximo. Disse em resposta a uma pergunta: "É a minha hora. E vou até o fim. Perdendo ou ganhando". Lembrou que, em 2006, por essa mesma época, Lula tinha índices piores do que ela nas pesquisas.

MENOS, DILMA, MENOS. Em maio de 2006, Lula tinha 45% das intenções de voto, segundo o instituto Datafolha.
Sua tendência era de alta. Pesquisa aplicada este mês conferiu a Dilma 37% com tendência de queda. Os mesmos 37% que ela alcançou em maio de 2010, ano em que se elegeu. Naquela ocasião estava crescendo.

O DESEJO DE MUDANÇA em 2006 e 2010 não foi medido por pesquisas tornadas públicas. Deveria ser baixo, do contrário Lula não se reelegeria com tanta folga nem elegeria Dilma. Este mês, o desejo de mudança atingiu 72% no Datafolha. Noutras palavras: pouco mais de sete em cada dez eleitores querem que o futuro presidente governe em parte ou de forma totalmente diferente de Dilma.

    A DE OUTUBRO será a sétima eleição presidencial pelo voto popular desde o fim da ditadura militar de 1964, que durou 21 anos. A primeira eleição foi em dezembro de 1989. Apresentaram-se 22 candidatos.
    O brasileiro votou apenas para presidente.
    Fernando Collor e Lula, que encarnaram a mudança em relação "a tudo", disputaram o segundo turno.
    Collor ganhou apertado.
    FERNANDO HENRIQUE se elegeu em 1994 como o candidato da continuidade. Havia sido ministro da Fazenda de Itamar Franco, o vice que substituíra Collor, cassado pelo Congresso sob a suspeita de ser corrupto. Deveu a eleição ao Plano Real, que levou sua assinatura. O plano introduziu uma nova moeda, reduziu ao mínimo a inflação que chegara a mais de 80% ao mês e estabilizou a economia.
    A CONTINUIDADE VOLTOU a triunfar em 1998, quando o Real ainda teve fôlego para reeleger Fernando Henrique. Em 2002, com o desemprego subindo, venceu a mudança: elegeu-se Lula. Nas eleições seguintes de 2006 e 2010, sustentada pelos resultados dos programas sociais e de uma melhor distribuição de renda, a continuidade venceu com Lula e Dilma. "A mulher de Lula", como Dilma se tornou conhecida, jamais disputara uma eleição.
    EMPENHADO, AGORA, em interromper a queda de Dilma nas pesquisas, o PT sacou de uma velha arma comum às campanhas de todos os partidos e candidatos que se veem em clara desvantagem: o medo. A arma foi usada em um comercial do PT na televisão. Atores representaram pessoas bem de vida confrontadas com o risco de se tornarem miseráveis.
Dará certo? Deu para Collor em 1989, que assustou eleitores dizendo que Lula ameaçava a democracia e a economia de mercado.
    O MEDO FICOU de fora da eleição de 1994, mas ajudou Fernando Henrique a bater Lula quatro anos mais tarde. Foi dito que o Plano Real naufragaria se Lula vencesse. A "esperança venceu o medo" em 2002 e elegeu Lula. Que se valeu do medo para derrotar Geraldo Alckmin na eleição de 2006. Foi dito que as empresas estatais seriam privatizadas se Alckmin vencesse.
    O medo perdeu o gás na eleição de 2010.
    DÁ-SE COMO VERDADE que o distinto público detesta pancadaria em campanha. Prefere a exposição elegante de boas ideias de governo. Não é assim. A pancadaria costuma funcionar. A arte está em saber calibrar o medo com promessas de felicidade.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Em família - RICARDO NOBLAT

“Nosso sistema de saúde é muito bom para os presos”
Roseana Sarney, governadora do Maranhão

Roma falou. Ou melhor: Brasília. A crise da segurança pública no Maranhão agravou-se desde o mês passado. Finalmente, na última sexta-feira, a presidente Dilma Rousseff postou sete mensagens consecutivas em seu Twitter. Para dizer que acompanha a crise, que despachou para São Luís seu ministro da Justiça e que providências para controlá-la começaram a ser tomadas. Citou algumas. E voltou a se calar.

TODO O CUIDADO é pouco. Dilma é candidata à reeleição. Há quatro anos, depois do Amazonas, foi o Maranhão, feudo da família Sarney há meio século, o estado a lhe conferir a maior vantagem de votos sobre Serra (PSDB) — 79% dos válidos no segundo turno. Primeiro cacique a se incorporar em 2002 à campanha de Lula, José Sarney foi o único a acompanhá-lo no avião que o devolveria a São Paulo, oito anos depois.

LULA APRENDEU a gostar dele. No passado, em comício no Maranhão, chamou Sarney de “ladrão”. No governo, encantado com seu apoio, batizou-o de “homem incomum” e fez-lhe quase todas as vontades. A crise da segurança pública que provocou até aqui decapitação de presos, atentados contra delegacias e a morte de uma criança queimada por bandidos veio em má hora para os Sarney — e, por tabela, para Dilma.

HÁ UM CANDIDATO favorito ao governo do Maranhão e ele é adversário da família — Flávio Dino, advogado, ex-deputado federal, filiado ao PCdoB e atual presidente do Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur). No plano nacional, o PCdoB está com a candidatura Dilma e não abre. No Maranhão, Flávio Dino está com a candidatura a presidente de Eduardo Campos (PSB), governador de Pernambuco. E também não abre.

ALI, NA MAIS recente eleição municipal, o PSB apoiou Edivaldo Holanda Junior (PTC) para prefeito de São Luís, e indicou seu vice. Eduardo participou ativamente da campanha de Edivaldo. Que agora é eleitor de Dino. Em Pernambuco, empurrada por Lula e Eduardo, Dilma teve três quartos dos votos. Agora não terá mais. Minas Gerais presenteou-a no segundo turno com quase 60% dos votos válidos.

O CANDIDATO majoritário de Minas Gerais à vaga de Dilma é o senador Aécio Neves (PSDB). Que espera colher em São Paulo, com a ajuda do governador Geraldo Alckmin, candidato à reeleição, uma vitória igual ou maior do que a de Serra em 2010. A luz amarela está acesa nos bastidores da campanha por ora informal de Dilma. Vê só por que ela aparenta estar alheia ao que acontece no Maranhão?

ALGUÉM VIU por aí a ministra dos Direitos Humanos? Ela não deveria ter viajado ao Maranhão? Roseana vetou — e Dilma acatou o veto. O procurador-geral da República deverá pedir intervenção federal no Maranhão. A ministra dos Direitos Humanos empenhou-se para que seus conselheiros não pedissem. Foi bem-sucedida. Roseana deixará o governo em abril próximo para ser candidata ao Senado.

SOMENTE NA semana passada ela quebrou o silêncio e falou sobre a crise. Foi um desastre. Agrediu o bom senso. Revelou-se despreparada para o exercício do cargo que ocupa pela segunda vez (SIC - PELA QUARTA VEZ). Traiu a arrogância de quem está acostumada a não dar satisfações ao distinto público. Cometeu a frase desde já candidata a frase do ano: “Um dos problemas que está piorando a segurança é que o estado está mais rico”.

O MARANHÃO TEM a pior renda per capita entre os 27 estados brasileiros. Está em 26º lugar em matéria de Índice de Desenvolvimento Humano. Quase 40% de sua população são pobres. Ali, manda a família de um homem incomum.