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segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Clóvis Rossi - Uma ruína chamada Brasil

Esse extraordinário cronista das agruras do Brasil chamado Vinicius Torres Freire errou apenas no "timing", quando escreveu nesta Folha, no domingo (27), que “faz cinco anos, a gente tem a impressão de que o Brasil está em ruína progressiva".
Cinco anos, nada, Vini. Não sei datar exatamente mas é evidente que faz muito mais tempo que cabe ao Brasil a pergunta que, recentemente, o Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa fez a respeito de seu país: “En qué momento se jodió Perú?” (vou traduzir “jodió” pudicamente por “apodreceu").
Não são apenas as barragens que se rompem em Minas Gerais, os viadutos que cedem em São Paulo, a memória brasileira contida no Museu Nacional que pega fogo - os exemplos recentes que bateram no fígado do meu ídolo Vinicius.
Bem mais velho que ele, cansei de falar de outras degradações (outro sinônimo pudico para “joderse").
Em março de 2018, para ficar no exemplo mais recente, escrevi:
“Em apenas cinco palavras, Ágatha Arnaus deu a explicação definitiva para a degradação infernal que assola o Brasil faz séculos:
'A gente acaba se acostumando’, disse Ágatha, a viúva de Anderson Gomes, o motorista da vereadora Marielle Franco, cuja execução representa a descida do país ao penúltimo círculo do inferno (sim, sempre conseguimos cair mais, mesmo quando parece que chegamos ao fundo do poço).
A gente se acostumou a perder o direito constitucional de ir e vir, desde que ir a determinados lugares significava correr enorme risco de não poder vir de volta.
A gente se acostumou a que a vida no Brasil é uma roleta russa: a gente nunca sabe se e quando a bala vai estar na agulha e nos atingir.
A gente se acostumou a aceitar que o Estado perdesse o monopólio do uso da força para grupos criminosos.
A gente se acostumou a aceitar o nome ‘milícias’ para o que são esquadrões da morte.
[A propósito, pode já ir se acostumando à louvação de tais esquadrões por cabeças coroadas, que até dão medalhas de honra a figuras desse nefando time].
A gente se acostumou ao apartheid social, origem de fundo de tantos males. Não só se acostumou: distraídos e/ou desonestos intelectualmente até festejaram a suposta queda da desigualdade nos anos do PT. A gente aceitou a fraude, até descobrir que a desigualdade não caiu: a porcentagem que cabe aos 10% mais ricos, já obscena antes do PT, subiu de 54% para 55% de 2001 a 2015 (período quase todo sob Lula/Dilma).
A gente se acostumou à degradação da escola pública nos últimos 50 anos, poucos mais, poucos menos. É consequência direta ou indireta do apartheid social. No meu tempo de estudante, todo ele transcorrido em escolas públicas, o acesso era para poucos, basicamente para a classe média, e o ensino era ótimo.
A partir do instante em que se massificou o acesso à educação, a gente se acostumou a achar que os pobres que a ela chegavam não precisavam de ensino de qualidade —e todos os testes educacionais globais acabam sempre colocando o Brasil em situação vexaminosa.
A gente se acostumou com uma saúde pública eternamente degradada e acabou aceitando, os que podiam, migrar para os planos de saúde privados, que tradicionalmente figuram entre os que mais reclamações provocam nos organismos de defesa do consumidor.
A gente se acostumou à corrupção. Todos os políticos presos ou sendo processados foram eleitos, por mais que inúmeros deles estivessem há anos sob suspeita".
Volto de 2018 ao presente, para citar email recebido de um acadêmico de alta qualidade, o sociólogo Zander Navarro, para quem o problema central do Brasil “é uma deformidade cultural", caracterizada, diz Navarro, por uma “invencível complacência, em relação a tudo e com todos, ainda que suas manifestações variem de acordo com as classes sociais. Trata-se de uma construção histórica e, por isso, estrutural, talvez impossível de ser mudada. E, não sendo mudada, nos condena às trevas para sempre".
O diabo é que as trevas golpeiam cada vez com mais frequência e com mais virulência. E aí, vem o prefeito de Brumadinho, Avimar de Melo Barcelos, e exibe pela tevê uma cena explícita de rendição (outro nome para complacência): diz aos repórteres que uma segunda barragem na cidade (ameaçada de rompimento até então) não poderia se romper, porque “a cidade não merecia tanto azar".
Pois é, o Brasil depende de Deus estar acordado 24 horas por dia ou de o capeta estar no comando.
Clóvis Rossi
Repórter especial, membro do Conselho Editorial da Folha e vencedor do prêmio Maria Moors Cabot.

domingo, 20 de abril de 2014

Quando Macondo era aqui - CLÓVIS ROSSI

Nem García Márquez seria capaz de inventar história tão fantástica quanto a realidade da transição
    Enquanto corria alucinadamente atrás dos fatos, no imediato pós-redemocratização (1985), ficava sempre achando que o que acontecia naqueles momentos não era a realidade, mas um conto de Gabriel García Márquez.
    Começa pelo fato de que o primeiro presidente civil --e, ainda por cima, de oposição-- depois de 21 anos de ditadura militar, gabava-se de nunca ter tido nem sequer um mísero resfriado.
    No entanto, esse simpático senhor, Tancredo de Almeida Neves, teve que baixar ao hospital horas antes da posse que seria o marco da tão aguardada redemocratização. Se fosse dias antes, semanas antes, ainda vá lá. Mas horas antes, quando todo o mundo oficial já vestia os trajes de gala para a posse, só podia ser Macondo.
    Ainda mais que o Hospital de Base de Brasília, onde Tancredo sofreria a primeira de uma série de cirurgias, foi invadido por um sem-número de "sabe com quem está falando?", como qualquer hospital das cidades e personagens do realismo fantástico.
    Depois que o presidente eleito foi transferido para o Incor, em São Paulo, Macondo instalou-se à porta do hospital, um grande circo de jornalistas, curiosos e autoridades.
Todos os dias, entre tantos exotismos, aparecia lá um cidadão fantasiado de Santos Dumont. Nunca entendi a ligação que poderia haver entre Tancredo e Santos Dumont.
O presidente-que-virou-paciente escolheria para morrer um 21 de abril, o dia de Tiradentes, para acentuar o caráter de martirológio que cercou a sua agonia.
    Como se fosse pouco, o sucessor de Tancredo, José Sarney, não era um companheiro da oposição ao regime militar, mas fora presidente do partido de sustentação da ditadura até os seus estertores. Nem García Márquez, com todo o seu formidável talento, seria capaz de imaginar uma situação desse tipo.
    E ainda haveria mais: Sarney, cercado da desconfiança de todos ou quase todos os que fizeram oposição ao regime militar, àquela altura tremendamente desgastado, tornar-se-ia em breve o mais popular dos presidentes da República desde que existem pesquisas de opinião pública a esse respeito, ao adotar o Plano Cruzado.
    O partido do governo, o PMDB, elegeu, pela primeira vez na história da República, a maioria absoluta dos deputados federais e senadores, além de todos os governadores estaduais, com a única exceção de Sergipe.
    Mas, mal se abriram as urnas, o Cruzado naufragou, a inflação voltou e, com ela, caiu ao mais profundo dos abismos a popularidade do presidente. Caiu tanto que o presidente que batera recordes de popularidade em 1986 não teve, na eleição de 1989, um mísero candidato a defender o seu legado.
    E ganhou exatamente o que montara a campanha como o mais desbragado oposicionista. Era Fernando Collor de Mello. Nem em Macondo aconteceria de, na primeira eleição direta após a ditadura militar, o vencedor ser um "filhote da ditadura", como o chamava, com toda razão, Leonel Brizola.
    É ou não é realismo mágico?