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sábado, 31 de maio de 2014

O fenômeno Joaquim Barbosa - ALBERTO DINES


Se já era espantosa a capacidade do presidente da suprema corte de ocupar o centro das atenções, o anúncio na última quinta-feira da sua aposentadoria imediata reforçou substancialmente o seu poder e a sua magia.

    O mistério em torno dos reais motivos que o levaram a interromper uma fulgurante carreira, as versões logo divulgadas – inclusive supostas ameaças de morte – tudo contribui para alimentar a magistral perícia desse magistrado para surpreender e empolgar.
    A opção pela renúncia é, em si, uma formidável alavanca para produzir admirações. Num ambiente marcado pela ambição desmedida, cobiça exorbitante e sofreguidão pelo poder, o simples gesto de abdicar e abrir mão contrasta vivamente com a legião de mãos sorrateiras, prontas para apoderar-se de tudo.
    Barbosa conhece a dinâmica do sebastianismo, o magnetismo exercido pelos encobertos, o fascínio dos sumidos. Escolheu o ostracismo como proteção e reforço. Espontaneamente, encaminha-se ao banco dos reservas num momento em que todos se engalfinham pela camisa de titular. Numa paisagem marcada pelo desgaste das lideranças e a evaporação das ideias-força, Barbosa prefere recolher-se para lustrar o capital acumulado.
    O horizonte sombrio sugere incertezas, trepidações, fissuras e até rupturas. Não apenas aqui ou no nosso entorno, mas também nos laboratórios do Hemisfério Norte e nos acervos do Velho Mundo. Os indícios fornecidos no último domingo pelo pleito europeu se avolumam e ganham relevância na medida em que a galeria de lideranças – independentemente das colorações partidárias – converte-se em mostruário de nulidades e insignificâncias. As exceções vão por conta de Angela Merkel (interessante mix de pragmatismo, moderação e racionalidade) e Vladimir Putin (com apetite, treino e instinto para audácias). O restante do time de chefes de governo é deplorável: David Cameron, François Hollande e Mariano Rajoy são medíocres, canhestros, o recém-chegado Matteo Renzi ainda não rodou o suficiente para mostrar atributos.
    O quase ex-presidente do STF sabe que o nível dos competidores dá dimensão aos torneios, por isso deve aguardar desafios mais qualificados. Na arena do STF seria compelido a desgastar-se com embates menores. Prefere preservar-se. E, periodicamente, fazer intervenções surpreendentes. Tem calibre, saber e senso de oportunidade para cultivar esperanças e expectativas.
    Joaquim Barbosa entrou em cena por vontade alheia, o presidente Lula queria um negro na corte suprema. Em apenas 11 anos, o ilustre desconhecido tornou-se o mais visível e respeitado chefe do Judiciário de todos os tempos. Diz o que pensa, faz o que lhe dita a consciência e o dever cívico e, como se não bastasse, consegue irradiar sua imagem e mensagens para grande parte da população, sem dispor de qualquer máquina partidária, midiática ou empresarial.
     É um fenômeno.

sábado, 11 de janeiro de 2014

A ilha de felicidade chamada Maranhão - ALBERTO DINES

    Se acontecesse no Rio, São Paulo, Minas, Paraná ou Pernambuco os respectivos governadores já estariam enfrentando multidões na porta de suas casas e a indignação federal estaria no nível de comoção internacional.
    Feliz ou infelizmente, o Maranhão – como Haiti – não é aqui. Está distante, longe do afluente sudeste, protegido pela modorra de um verão tão inclemente que torna penosa a composição de uma simples manchete expressando horror e revolta com o que acontece naquele paraíso.
    Primeiro foi o cacique do clã e vice-rei do Brasil, José Sarney, afirmando que estava contida a violência nas prisões do estado governado pela filha querida, Roseana. Como a bandidagem de hoje também lê jornais e acessa a internet dos celulares mesmo atrás das grades, a violência ganhou as ruas de São Luiz num claro desafio ao imortal ficcionista. Incendiaram um ônibus, uma criança morreu queimada, sua mãe e irmã estão internadas sofrendo as severas consequências das queimaduras.
    A patética desculpa do pai ex-presidente, inspirou a discípula ex-presidenciável, que nesta quinta, ao lado de um ministro da Justiça envergonhado com aquela despudorada exibição de cinismo, teve o desplante de afirmar que a violência do Estado resulta do fato que o Maranhão “está mais rico”.

    Acrescente-se que a viagem do ministro – uma das poucas ações federais nesta catástrofe humanitária – decorreu de uma veemente denúncia da ONU no dia anterior exigindo do governo brasileiro ações imediatas para a restauração da ordem e o respeito aos direitos humanos no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, na capital do Maranhão. A ação da ONU resultou da exibição mundial de um vídeo feito pelos próprios detentos mostrando a decapitação de três desafetos. Uma das vítimas, segundo o seu pai (que examinou o corpo no IML) recebeu pelo menos 180 facadas.

    A charmosa Roseana se disse surpresa e chocada com o que se passa no seu quintal, porém, vem sendo advertida desde 2008 – há cinco anos! – pelo Conselho Nacional de Justiça e outros entes oficiais ou ONGs para os perigos da irrupção do vulcão.
    Desta vez, a presidente Dilma não parece perplexa como aconteceu com a agitação junina. Ontem tuitou que está alerta. Tão alerta que determinou à brava ministra da Secretaria de Direitos Humanos, Maria do Rosário, que tomasse cuidado com suas indignadas falas e ações. Qualquer descuido – leia-se desagrado aos Sarney – poderá ser fatal. Estamos na temporada de reformas ministeriais, logo teremos eleições e Sarney é o grande eleitor, dono do PMDB, o mais importante aliado do governo.
    O respeito aos direitos humanos já foi bandeira de grandes movimentações: no inexpugnável regime militar chegou a derrubar generais de quatro estrelas e até ministro da Guerra. Hoje virou moeda de troca: você me apóia e eu esqueço que a guilhotina está funcionando dentro da Bastilha maranhense: Pedrinhas.
    Neste Brasil entediado e satisfeito, estas Bastilhas não caem. A riqueza é tanta e tão bem distribuída que o terror e a violência já não contam. Nem produzem manchetes.