sexta-feira, 22 de novembro de 2019

NOS JORNAIS

 Desmatamento no Maranhão cai 15% no período 2018/2019, diz relatório do INPE
 Sextou! Ação conjunta fará controle de venda de bebida no centro
Governo Dino anuncia que não aumentará ICMS em 2020
 Paulo Câmara adere à reforma da Previdência
 Ceará registra média de um feminicídio por semana
 Maioria do STF diverge de Toffoli sobre o Coaf
 Bolsonaro lança partido próprio com bala e Bíblia

 Emprego formal tem melhor desempenho desde 2014

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

MACAÉ EVARISTO - Para onde as cotas nos levam

Dezoito anos após a Conferência de Durban, na África do Sul, pretos e pardos pela primeira vez são maioria na educação superior no Brasil, informa o IBGE. Constata-se aumento extraordinário de estudantes pretos, pardos e indígenas, especialmente depois da lei nº 12.711/2012, conhecida como Lei de Cotas.
É fato que, a partir de 2001, os governos serão fortemente influenciados pelo debate público catalisado por várias organizações do movimento negro, que advogaram a elaboração de propostas de superação do racismo, posto em relevo pela realização da conferência.
Em especial, as propostas voltadas para a educação: acesso à educação para todos e todas na lei e na prática; adoção e implementação de leis que proibissem a discriminação com base em raça, cor, descendência, religião, origem nacional ou étnica em todos os níveis de educação, tanto formal quanto informal; medidas necessárias para enfrentar os obstáculos que limitassem o acesso de crianças à educação; recursos para eliminar desigualdades nos rendimentos educacionais; apoio aos esforços para garantir um ambiente escolar seguro, livre da violência e de assédio motivados por racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância correlata; estabelecimento de programas financeiros desenhados para capacitar todos os estudantes, independentemente de raça, cor, ascendência, origem étnica ou nacional a frequentarem instituições de ensino superior.
Os governos do campo democrático e popular (Lula e Dilma) aceleraram o passo para um período de oportunidades para todos com expansão do quadro da oferta de ensino superior público e ampliação de mecanismos de acesso às instituições privadas, com o fortalecimento do Fies e a criação do Prouni, além das cotas sociais.
Felizmente, contrariando o discurso conservador que apostava na desqualificação do ensino superior, a presença de pretos e pardos nas universidades tem provocado inúmeros aprendizados e tensões, que vão desde a construção do hábito de conviver com a presença negra na paisagem universitária até um entendimento público da necessidade da construção de uma educação antirracista, no sentido de criar mecanismos institucionais que permitam a permanência desses estudantes.
Assistência estudantil, programa Bolsa Permanência, bolsas de pesquisa e extensão, novas estruturas acadêmicas e procedimentos administrativos e/ou jurídicos específicos e reestruturação curricular são alguns dos elementos com os quais a presença negra indaga a universidade na produção de novos conhecimentos, significados e experiências. 
Vale lembrar aqui as múltiplas estratégias que estudantes negros têm adotado para suportar a sua permanência em ambientes ainda hostis e conservadores, que vão da denúncia de fraudes nos processos de autoidentificação à organização de coletivos de ajuda mútua. Um exemplo desse movimento foi o surgimento do grupo de estudos “Orientação Afirmativa”, fruto do voluntariado das estudantes Pâmela Guimarães, Mayra Bernardes e Lucianna Furtado, visando preparar candidatos negros que pretendiam ingressar no mestrado do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UFMG. Além disso, a juventude negra tem buscado novas formas de organização para garantir políticas públicas afirmativas em diferentes campos.
Entretanto, é um erro supor que tudo o que precisamos é somente da constatação de uma maioria preta e parda na educação superior. Numa análise mais detalhada dos indicadores sociais brasileiros pode-se desvelar, ainda, que os estudantes quilombolas quase não foram alcançados nesse processo; que um grande número de pessoas negras continua em situação de pobreza extrema; que um número absurdo de pessoas negras está nos presídios e que o mesmo Estado, que insere na universidade, produz uma matança sem precedentes de jovens e crianças nos territórios negros desse país.
O que podemos aprender com as cotas é que a mudança é possível e que os movimentos de massa, no caso, o movimento negro, podem, de fato, promover mudanças sistêmicas que humanizem as relações sociais e que também beneficiem outros segmentos. Nosso grande desafio continua sendo construirmos portas e janelas para desmantelar o racismo estrutural da sociedade brasileira.
Macaé Evaristo
Educadora, ex-secretária de Alfabetização, Diversidade e Inclusão do Ministério da Educação (2013-14, governo Dilma Rousseff) e ex-secretária de Estado de Educação de Minas Gerais (2015-18, governo Fernando Pimentel)

Thiago Amparo - Ideias para adiar o fim do mundo

Já fora escrito que a história ocorre em geral duas vezes: primeiro como tragédia, depois como farsa. Este parece ser o caso. 
Eis a tragédia. A base de Alcântara, no Maranhão, fora construída no fim do regime militar sobre as terras de 312 famílias quilombolas, deslocadas de seus territórios sem devida reparação.
Agora, a farsa. Desde abril deste ano, os ministérios da Defesa, de um lado, e da Ciência e Tecnologia, de outro, emitem declarações contraditórias sobre o plano do governo federal referente à remoção de famílias quilombolas da região do Centro de Lançamento de Alcântara.
O presidente Jair Bolsonaro condecora o ministro Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia), durante cerimônia de imposição de insígnias da Ordem do Rio Branco, no Itamaraty
O presidente Jair Bolsonaro condecora o ministro Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia), durante cerimônia de imposição de insígnias da Ordem do Rio Branco, no Itamaraty - 03.mai.2019 - Pedro Ladeira/Folhapress
Apoiado tanto pelo PC do B que governa o estado do Maranhão quanto pelo governo federal, o processo de aprovação do acordo nada esclarece sobre este e outros impactos socioambientais.
Mesmo diante destas incertezas, o Congresso Nacional impõe celeridade à tramitação do acordo de Alcântara, o que resvala em irresponsabilidade.
Embora o texto do acordo não preveja expressamente a expansão da base de Alcântara, documentos oficiais relevados pela Folha na última sexta (11) detalham plano avançado de remoção de 350 famílias para viabilizar ampliação do Centro de Lançamento.
Notas técnicas do Movimento dos Atingidos pela Base Espacial e do MPF contabilizam impacto duas vezes maior: cerca de 792 famílias seriam deslocadas. 
Já se pode imaginar como o acordo de Alcântara seria tratado pela cosmologia bolsonarista. “Quilombola não serve nem para procriar”, disse em 2017 o então deputado Jair Bolsonaro.
No mundo real, a pergunta que o governo deve responder é mais direta: expulsará 2.000 pessoas de suas terras à força? 
Engana-se quem veja em Alcântara apenas um caso isolado de desprezo pelas centenas de famílias a serem deslocadas.
Mesmo tendo em mente que consultas a povos indígenas e quilombolas em projetos de desenvolvimento nunca foram de fato levadas muito a sério pelo Estado brasileiro (vide Belo Monte no governo Dilma), pode-se situar Alcântara dentro de um projeto bolsonarista mais amplo de silenciamento desses povos.
Conforme revelou esta Folha no último dia 4, Bolsonaro, por meio de um grupo de trabalho na Casa Civil, busca formas jurídicas para abandonar a Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), tratado que impõe exigências legais de consulta livre, prévia e informada a povos indígenas e quilombolas sobre os projetos que os afetem. 
Ao fazê-lo, Bolsonaro apostas fichas na capacidade de vender ao seu público a falsa ideia de que povos indígenas e quilombolas são entraves ao desenvolvimento.
Para que seja exitoso seu plano, Bolsonaro deverá passar por cima do STF, que tem em diversos casos reconhecido a estatura constitucional da convenção, inclusive sua aplicabilidade a comunidades quilombolas.
A propósito, a corte perdeu a oportunidade de reforçar a obrigatoriedade de consulta prévia no caso de Alcântara, ao decidir no último dia 26 não interferir no processo legislativo referente ao acordo. Ali, desapontou sua tarefa constitucional em tempos bicudos.
Quilombo não é algo mítico. É real. Vivem hoje no Brasil 2.744 comunidades reconhecidas oficialmente como remanescentes de quilombos. Foram e continuam sendo espaços de resistência.
Do arco e flecha de Zeferina, que defendeu em 1826 o quilombo do Urubu na Bahia, às camélias brancas outrora cultivadas no quilombo do Leblon, no Rio de Janeiro. Lembrando aqui do escritor indígena Ailton Krenak, se pudermos escutar estas vozes, talvez possamos adiar o fim do mundo.
Thiago Amparo
Advogado, é professor de políticas de diversidade na FGV Direito SP. Doutor pela Central European University (Budapeste), escreve sobre direitos humanos e discriminação.

NOS JORNAIS

 Maranhão incluído no programa de R$ 66 milhões do governo federal que atinge 14 municípios
Votada da Previdência Estadual será votada hoje na Assembleia Legislativa
Gestão Dino quer aprovar hoje mudanças na previdência do MA
 Desemprego castiga mais as mulheres no país
119 mil cearenses buscam emprego há mais de 2 anos
Poder e dor no Brasil negro
 Com 13º, orçamento do Bolsa Família  tem Rombo de R$ 759 mi
STF julga questão que pode anular caso Queiroz e mais 934
 Aras critica liminar de Toffoli que restringe investigações

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Laurentino Gomes: ''É preciso enfrentar de forma corajosa o racismo''

Das 500 maiores empresas que operam no Brasil, apenas 4,7% dos postos de direção são ocupados por afrodescendentes, destaca Laurentino Gomes, em entrevista exclusiva ao CorreioAutor do recém-lançado livro Escravidão — o primeiro de uma trilogia — o premiado jornalista e pesquisador faz um detalhado mapeamento de um Brasil cheio de contradições. “A escravidão continua a existir entre nós sob formas sutis e disfarçadas, que incluem o preconceito racial e o regime de trabalho que, em muitos aspectos, se assemelham ao cativeiro”, destaca. “O desafio é fazer uma segunda abolição”, acrescenta.

Como entender a construção do Estado brasileiro desde 1808, livro de estreia da sua primeira trilogia, até o recém-lançado Escravidão?
A escravidão é o fio condutor de todos os grandes eventos da história brasileira. Seria impossível entender os nossos principais ciclos econômicos — como os do açúcar, do ouro, do diamante e do café — sem estudar a dependência da economia brasileira em relação à mão de obra cativa. A escravidão aparece também como pano de fundo dos acontecimentos mais importantes, como a guerra contra os holandeses, a Independência e a Proclamação da República.
O Império brasileiro, que nascia com a chegada da corte de Dom João ao Rio de Janeiro, em 1808, me encanta por uma certa nostalgia, um projeto de Brasil que poderia ter sido e não foi, uma miragem que se perdeu no passado. O Brasil imperial era uma terra mais imaginária do que real. Às vésperas da proclamação da República, havia ali um país que aparentava ser mais civilizado, rico, elegante e educado do que de fato era ou seria no futuro. Aos diplomatas e visitantes estrangeiros, apresentava-se como um império destinado a ser grande, poderoso, desenvolvido, ilustrado — um “gigante adormecido em berço esplêndido”, como dizia a própria letra do Hino Nacional.
O imperador Pedro II, sempre fotografado com um livro nas mãos ao lado de um objeto científico, era o símbolo maior disso tudo. Esse Brasil de sonhos, no entanto, confrontava-se com outro, real e bem diferente, marcado pela escravidão, pelo analfabetismo e pela pobreza. Era uma contradição difícil de sustentar no longo prazo.
O historiador pernambucano Oliveira Lima escreveu que a República foi o resultado lógico da decomposição do regime monárquico. Durante 67 anos, o Império brasileiro funcionou como um gigante de pés de barro. Os salões do Império procuravam imitar o ambiente e os hábitos de Viena, Versalhes e Madri, mas a moldura real compunha-se de pobreza e ignorância. Havia uma flagrante contradição entre a corte de Petrópolis, que se julgava europeia, e a situação social dominada pela mão de obra cativa, na qual mais de um milhão de escravos eram considerados propriedade privada, sem direito algum à cidadania.
Nesse Brasil “de faz de conta”, destacava-se uma nobreza constituída, em sua maioria, por fazendeiros donos ou traficantes de escravos. Eram eles os sustentáculos do trono que, em contrapartida, lhes conferia títulos de nobreza não hereditária, tão efêmera quanto a própria experiência monárquica brasileira. Todo esse precário arcabouço político começou a ruir em 1888, com a assinatura da Lei Áurea, que abolia a escravidão no país. Os barões do café, os senhores de engenho e os fazendeiros, que dependiam da mão de obra cativa, sentiram-se traídos e aderiram à campanha republicana. Portanto, para entender o que somos hoje, é preciso estudar a escravidão.
Pelo menos 6 milhões de nativos foram retirados à força de suas nações na África para servir de mão de obra em terras brasileiras. Como pagar esse débito?
Ainda temos pela frente o desafio de fazer uma segunda abolição, como se fosse um complemento à Lei Áurea de 1888. Isso significa enfrentar de forma corajosa e decisiva o problema do racismo e da desigualdade social no Brasil. Infelizmente, a escravidão continua a existir entre nós sob formas sutis e disfarçadas, que inclui o preconceito racial e o regime de trabalho que, em muitos aspectos, se assemelham ao cativeiro.
O Brasil tem feito esforços genuínos na criação de leis, instituições e regulamentos destinados a combater o racismo. Mas ainda há muito a ser feito. A ideologia racista, usada no passado para justificar o tráfico negreiro, permanece, ainda hoje, oculta nas formas preconceituosas de relacionamentos entre brancos e negros. Isso faz com que, por exemplo, nas 500 maiores empresas que operam no Brasil, apenas 4,7% dos postos de direção e 6,3% dos cargos de gerência sejam ocupados por afrodescendentes.Os brancos são também a esmagadora maioria em profissões qualificadas, como engenheiros (90%), pilotos de aeronaves (88%), professor de medicina (89%), veterinários (83%) e advogados (79%). No meu entender, só a persistência de uma ideologia racista, que recusa oportunidades a todos os brasileiros, independentemente da cor da pele, explica essas diferenças. Ou seja, o verdadeiro racismo não se expressa apenas com palavras e atitudes ofensivas, que a lei proíbe, mas na recusa em dar oportunidades às pessoas negras ou afrodescendentes de se realizarem plenamente como seres humanos. Esse é o famoso racismo estrutural, enfronhado na nossa maneira de ser, de agir e de pensar. Também por isso, eu sou a favor do regime de cotas preferenciais para afrodescendentes nas escolas e postos da administração pública. A começar pelo seu caráter simbólico. Mais de um século depois da Lei Áurea, é a primeira vez que o Brasil, sob um regime democrático, tenta implantar políticas públicas destinadas a enfrentar o legado da escravidão.
A política de cotas é polêmica, aqui e em qualquer lugar do mundo, mas é também um importante mecanismo de correção de injustiças e desníveis de oportunidades entre os brasileiros. Nós nunca vamos ter um país decente, enquanto nós não dermos as mesmas oportunidades para a população afro-brasileira se expressar na sua plenitude, nos seus talentos e vocações. Mais do que o pagamento de uma dívida histórica, portanto, as cotas são um importante investimento no futuro do país.
O escritor moçambicano Mia Couto destaca que os brasileiros não conhecem e não estudam a África como deveriam. Você concorda? Temos uma visão europeia diante do continente africano?
No fim do século 17, o padre jesuíta Antônio Vieira cunhou uma frase famosa. “O Brasil tem seu corpo na América e sua alma na África”, afirmava ele. No meu entender, é uma frase profética, que continua atual ainda hoje. O problema é que hoje mantemos com a África uma relação esquizofrênica e contraditória. É como se houvesse uma cisão entre corpo e alma brasileiros. O trabalho cativo africano deu o alicerce para a colonização portuguesa na América e a ocupação do seu imenso território.
Também moldou a maneira como nos relacionamos uns com os outros ainda hoje. O Brasil dos colonizadores, que durante quase quatro séculos explorou o trabalho de milhões de cativos africanos, sempre sonhou ser branco e europeu. Um dos projetos nacionais mais discutidos durante o Segundo Reinado foi o de branqueamento da população.
Segundo a opinião entre as elites da época, o sangue africano teria “corrompido” o caráter e a índole dos brasileiros. Era preciso compensá-lo importando milhões de colonos europeus católicos e brancos, o que de fato mudou a configuração demográfica dos estados do Sul, incluindo São Paulo. Um dos casos mais bem-sucedidos de “branqueamento” populacional é o estado em que nasci, o Paraná.
Em 1850, quase metade da população de Curitiba era negra. Hoje, é quase inexpressiva, devido à chegada dos imigrantes poloneses, alemães, ucranianos e italianos, entre outras nacionalidades. Essa esquizofrenia entre corpo e alma aparece ainda hoje. Neste início de século 21, temos uma sociedade rica do ponto de vista cultural, diversificada e multifacetada, mas também marcada por grande desigualdade social e manifestação quase diária de preconceito racial. De um lado, celebramos as nossas heranças presentes na música, na dança, na culinária e outros aspectos que tanto diferenciam a cultura brasileira no mundo, entre o mais cru preconceito racial. De outro, desprezamos a nossa África, tratada com preconceito e abandono, que se expressa na forma de desigualdade social.
Por que essa “desimportância” que damos à cultura africana, mesmo ela tão impregnada em nossas vidas? Não nos reconhecemos?
Acho que, oculto sob esse aparente desinteresse, existe um projeto nacional de esquecimento. O Brasil, maior território escravagista do hemisfério ocidental, abandonou os ex-escravos e seus descendentes à própria sorte depois da Lei Áurea. Nunca se preocupou em lhes dar terra, trabalho, educação e oportunidades. Abandonou também a própria memória da escravidão.
Até recentemente, o assunto era praticamente ignorado nos currículos escolares e nos livros didáticos. E não por acaso, nunca tivemos um grande museu nacional da escravidão e da cultura negra. Museus, como se sabe, não são apenas lugares de passeio e entretenimento. São locais de estudo e reflexão. Não ter um museu com esse perfil é, portanto, parte desse projeto nacional de esquecimento. Em vez de estudar e refletir a sério a história e o legado da escravidão, preferimos construir alguns mitos a respeito de nós mesmos. Um deles afirma que teríamos tido uma escravidão mais benévola, patriarcal e boazinha, o que também teria dado origem a uma grande democracia racial brasileira. Tudo isso é mito e está sendo confrontado hoje pela realidade dos números, que mostram um abismo de oportunidades e condições de vida entre o Brasil europeu e o Brasil africano. Rediscutir nossa identidade nacional, o que inclui um reconhecimento da importância e do legado da escravidão, é um dos nossos desafios mais urgentes.
Você identifica traços da escravidão no Brasil contemporâneo? Há uma escravidão sutil, subliminar ou ela está escancarada nas estatísticas de pobreza, por exemplo?Escravidão não é um assunto bem resolvido e congelado no passado. Ainda está vivo entre nós e pode ser observado na paisagem e nos números. Somos um dos países mais segregados do mundo, na geografia e nas estatísticas. Basta observar quem mora nas periferias insalubres, perigosas, dominadas pelo crime organizado, pelo tráfico de drogas, sem qualquer assistência do Estado brasileiro. Na maioria, são pessoas afrodescendentes. Enquanto isso, os chamados “bairros nobres”, com boa qualidade de vida, segurança, serviços públicos e educação de qualidade, são habitados por pessoas descendentes de colonizadores europeus brancos.
O preconceito é uma das marcas das nossas relações sociais no Brasil, embora sempre procuremos disfarçá-lo com os mitos de que seríamos uma grande e exemplar “democracia racial” e que a escravidão entre nós teria sido mais patriarcal e tolerante do que em outros territórios da América. Tudo isso é ilusório e desmentido pelas estatísticas, que mostram um fosso enorme de desigualdade entre negros e brancos no país em todos os itens analisados. Os descendentes de africanos ganham menos, moram em lugares mais insalubres, estão mais expostos aos efeitos da violência e da criminalidade e têm menos oportunidades em todas as áreas, incluindo emprego, saúde, educação, segurança, saneamento, moradia e acesso aos postos da administração pública. Esse é um legado da escravidão, mal resolvido no passado e que ainda hoje tentamos negar.
As redes sociais são um ambiente em que a propagação do racismo é exacerbada e impune. É possível combater as narrativas da desorientação? Como humanizar as relações entre as pessoas?
As redes sociais se tornaram um terreno fértil para um projeto global de desinformação com objetivos políticos. A era da pós-verdade afeta de modo particular o jornalismo, a profissão que exerço há 42 anos. Os jornalistas e o jornalismo estão sob ataque cerrado no mundo inteiro. Isso é parte de projetos ideológicos poderosos, de esquerda e de direita, que, para serem bem-sucedidos, dependem de uma sociedade desinformada e vulnerável à manipulação da informação. Como se defender disso? Acho que, mais do que nunca, precisamos ser consistentes na pesquisa, honestos e transparentes no nosso trabalho. A nossa salvação estará sempre na qualidade, na credibilidade e na relevância do conteúdo que produzimos. A melhor maneira de enfrentar a desinformação é ajudar a sociedade a se manter informada, com capacidade de crítica e discernimento para tomar decisões que dizem respeito ao seu futuro e aos seus interesses. Este é um tempo marcado também por falta de gentileza. Precisamos ser gentis uns com os outros, o que também significa sermos educados nas redes sociais e evitar tanto quanto possível estimular o clima de ódio e intolerância reinante nesse meio.
Qual o retrato do Brasil, hoje? Em que o diferencia da colônia de 1808 e em que se assemelha?
As dificuldades atuais são enormes e, às vezes, parecem até insuperáveis. Ao ler o noticiário, temos razões de sobra para acreditar que o país é mesmo corrupto, injusto, violento, dominado por gente cínica e desonesta. Apesar disso, eu acredito no futuro do Brasil. Vivemos um momento decisivo e a grande tentação que paira no nosso horizonte hoje é justamente o desânimo. Por isso, é sempre bom observar o presente com um certo distanciamento. Se olharmos o Brasil de uma perspectiva mais histórica, há razões para otimismo moderado. Nesses últimos dois séculos, desde a chegada da corte de Dom João ao Rio de Janeiro, em 1808, passando pela Independência, em 1822, e pela Proclamação da República, em 1889, o Brasil falhou na tarefa de realizar coisas importantes, como prover educação para todos, incorporar os ex-escravos na sociedade civil e produtiva, reduzir a pobreza e formar cidadãos. São questões que ainda nos desafiam hoje.
Por outro lado, o fato de termos chegado até aqui como um país grande, integrado, de dimensões continentais, relativamente tolerante no aspecto político, racial e religioso, nos fornece sinais de esperança em relação aos problemas do presente.
Como levar o debate do preconceito e do ódio a pessoas que relutam em entender o processo histórico? 
Acho que a melhor maneira de enfrentar esses desafios é pela educação, pela leitura e, em particular, pelo estudo da história. Precisamos entender e refletir sobre o que aconteceu. Uma sociedade, ou um país, que não estuda história é incapaz de entender a si mesmo, porque desconhece as suas raízes. Como não sabe de onde veio, provavelmente também não saberá o que (ou quem) é hoje e muito menos o que será no futuro.
Por isso, estudar história é uma tarefa fundamental em um Brasil que, pela primeira vez em mais de 500 anos, convida todos os brasileiros a participarem da construção do futuro em um regime de democracia representativa. Só pelo estudo de história será possível preparar, ou qualificar, os cidadãos brasileiros para a difícil tarefa de fazer escolhas e organizar a realização do país dos nossos sonhos. Isso inclui o racismo e o passivo social resultante da escravidão.
O pensamento conservador saiu das minorias ricas e alcançou as periferias das grandes cidades, justamente onde moram os excluídos, os vulneráveis... As vítimas históricas do racismo. Por quê?
Vivemos tempos sombrios, de pouca racionalidade, muita gritaria, muita intolerância e radicalização. Existe um clima de desânimo e de grande frustração no Brasil e no mundo todo, devido às promessas de combate à pobreza e de melhoria das condições de vida que nunca se cumpriram. A concentração de renda nunca foi tão grande. As jornadas de trabalho se tornaram exaustivas. A vida urbana é caótica, perigosa e estressante. Nesse ambiente de incerteza e falta de sonhos, grupos poderosos tentam manipular a opinião pública tentando desqualificar pesquisas e conclusões científicas no que diz respeito ao meio ambiente e à própria história. Usam como arma argumentos nacionalistas e preconceituosos que, no passado, provocaram grandes tragédias na história da humanidade. O alvo mais vulnerável é justamente a população de menor escolaridade, que nunca teve a chance de desenvolver um filtro crítico contra o discurso extremista e manipulador. A ignorância, como se sabe, é um instrumento muito eficaz de dominação.
Você destaca no livro Escravidão que “onde houve ser humano, houve escravidão”... É esta a nossa natureza?
Infelizmente, sim, a escravidão parece fazer parte do código genético do ser humano. Existiu em todas as grandes civilizações, incluindo a Babilônia, o Egito, a Grécia, Roma, os territórios dominados pelo islã e a própria África antes da chegada dos europeus. No Brasil, envolveu tantos indígenas quanto africanos escravizados.
Antes de investir maciçamente no tráfico de cativos africanos, os portugueses tentaram de todas as maneiras suprir as necessidades de mão de obra da colônia com escravos indígenas. Estima-se que, na época da chegada de Cabral, haveria entre três e quatro milhões de indígenas brasileiros, distribuídos em centenas de tribos. Falavam mais de mil línguas e representavam uma das maiores diversidades culturais e linguísticas do mundo. Foram massacrados por doenças, guerras e ocupação de suas terras.
O Brasil matou, em média, um milhão de indígenas a cada 100 anos até a chegada da corte de Dom João, em 1808. Ainda hoje, o regime escravista persiste no mundo e no Brasil sob formas de trabalho desumanas, indignas e inaceitáveis para os padrões éticos que julgávamos ter atingido neste início de século 21. Uma organização britânica a Anti-Slavery International (mais antiga entidade de defesa dos direitos humanos, fundada em 1823 para combater o tráfico negreiro) afirma que existem atualmente mais escravos no mundo do que em qualquer período nos 350 anos de escravidão africana nas Américas.
Seriam 40 milhões de pessoas vivendo hoje em condições de vida e trabalho análogas às da escravidão, ou seja, quatro vezes o total de cativos traficados no Atlântico até meados do século 19. Ainda segundo a Anti-Slavery Internacional, a cada ano, cerca de 800 mil pessoas são traficadas internacionalmente ou mantidas sob alguma forma de cativeiro, impossibilitadas de retornar livremente e por seus próprios meios aos locais de origem. E lamentavelmente, o nosso Brasil aparece sempre com destaque nesta lista suja.
Escravidão é o primeiro capítulo de sua nova trilogia; pode adiantar quais abordagens os outros dois volumes terão?
Os três livros compreendem uma série de ensaios e reportagens de campo e, sempre que possível, procuram seguir uma ordem cronológica. O primeiro volume, lançado na Bienal do Rio de Janeiro 2019, tem seu foco principal na África — pela óbvia razão de que, ao escrever sobre a escravidão no Brasil, é preciso começar pela África. Cobre um período de, aproximadamente, 250 anos, entre o início das incursões e capturas de escravos pelos portugueses na costa da África, em meados do século 15, até o fim do século 17. Traz também alguns capítulos sobre a escravidão em outros períodos da história da humanidade, como na Grécia Antiga, no Egito dos faraós, no Império Romano e nos domínios do islã e na própria África antes da chegada dos portugueses.
O segundo livro, previsto para 2020, concentra-se no século 18, auge do tráfico negreiro no Atlântico, motivado pela descoberta das minas de ouro e diamantes no Brasil e pela disseminação do cultivo de cana de açúcar, arroz, tabaco, algodão e lavouras e do uso intensivo de mão de obra cativa em outras regiões do continente. Num período de apenas 100 anos, mais de 6 milhões de seres humanos foram traficados da África para as Américas, dos quais 2 milhões (um terço do total), só para o Brasil.
O terceiro e último livro, a ser lançado em 2021, se dedica ao movimento abolicionista, ao tráfico ilegal de cativos, ao fim (pelo menos do ponto de vista formal e legal) da escravidão no século 19 e ao seu legado nos dias atuais. São também abordados, nos dois volumes finais da trilogia, temas como a família escrava, as alforrias, a escravidão urbana, as festas, as irmandades e as práticas religiosas, a assimilação, as fugas, as rebeliões e os movimentos de resistência.

Dia da Consciência Negra - Canal Curta exibe filme sobre Abolição na quarta (20)

Em novembro, mês em que completa 7 anos, o Canal Curta! apresenta uma programação especial, destacando produções que debatem questões raciais e o passado escravocrata brasileiro. Entre elas, o documentário inédito “A Última Abolição”, de Alice Gomez, que estreia no Dia Nacional da Consciência Negra, 20 de novembro.
O Brasil foi o último país ocidental a decretar o fim da escravidão, e o filme aborda justamente o período que culminou na abolição: a ação dos movimentos abolicionistas, a resistência escrava, o papel das mulheres negras nesse contexto e as discussões que permeavam a elite da época. 

Embasado pelo depoimento de estudiosos sobre o tema, como os professores Amílcar Pereira (UFRJ), Giovana Xavier (UFRJ) e Ana Flávia Magalhães (UNB), o documentário também explora as consequências da Lei Áurea, logo após sua assinatura e na contemporaneidade brasileira. “A Última Abolição” é uma produção da Gávea Filmes viabilizada pelo Canal Curta! através do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). A estreia é na Quarta do Cinema, dia 20/11, às 22h30.

NOS JORNAIS


Como conseguir uma promoção em seu trabalho
Fim de semana sangrento com homicídios e mortes no trânsito
 Leão fica no 0 a 0 e frustra torcida
Seis casos de advogados suspeitos de envolvimento com facções
Risco no uso de patinetes e bikes de app abre debate
 TSE propõe regras para tentar conter fake news
Reforma tributária do governo prevê imposto federal sobre consumo
 MDB, PSDB e PSD dominam pequenos municípios sob risco de extinção

sábado, 16 de novembro de 2019

Poema do dia

POR DECORO
Artur Azevedo
Quando me esperas, palpitando amores,
e os lábios grossos e úmidos me estendes,
e do teu corpo cálido desprendes
desconhecido olor de estranhas flores;
quando, toda suspiros e fervores,
nesta prisão de músculos te prendes,
e aos meus beijos de sátiro te rendes,
furtando às rosas as purpúreas cores;
os olhos teus, inexpressivamente,
entrefechados, lânguidos, tranquilos,
olham, meu doce amor, de tal maneira,
que, se olhassem assim, publicamente,
deveria, perdoa-me, cobri-los
uma discreta folha de parreira.

* Arthur Nabantino Gonçalves Azevedo ( 1855-1908)

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

NOS JORNAIS

 Parlamentares do Maranhão falam das perspectiva para a Base de Alcântara com aprovação do acordo entre Brasil e EUA
Brancos ganham mais que negros e pardos no Maranhão
Alcântara entra no radar de lançadoras de satélites
 Compras mais seguras no Natal
 ...
Brasil e China negociam ampliação do comércio
 Toffoli intima BC e obtém dados de 600 mil
Brasil e China negociam área de livre comércio, diz Guedes
 Bolsonaro faz aceno à China e Guedes fala em livre comércio

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Racistas prestam depoimento sobre caso do jogo no Mineirão

Suspeitos de praticar injúria racial contra o segurança Fábio Coutinho, no Mineirão, os irmãos Adrierre Siqueira da Silva, de 37 anos, e Natan Siqueira da Silva, de 28 anos, prestaram depoimento nesta terça-feira (12) no Departamento de Operações Especiais (Deoesp), em Belo Horizonte. Os dois querem pedir desculpas pessoalmente ao funcionário.
— O pedido de desculpa pode ser considerado pelo juiz lá na frente, mas não tem peso de retratação no crime de injúria racial —explicou a delegada Fabíola Oliveira à TV Globo.
No último domingo, durante o clássico entre Atlético-MG e Cruzeiro, que teve brigas dentro e fora do estádio, com 65 detenções, os irmãos foram flagrados em imagens de celular xingando Fábio Coutinho que fazia a segurança no interior do Mineirão. No vídeo, que viralizou nas redes sociais, Natan o teria chamado de macaco. Ele, no entanto, negou que tenha usado a palavra para ofender o segurança:
—De forma alguma, tanto é que eu tenho irmão negro, tenho pessoas que cortam o meu cabelo que são negros, amigos que são negros. Isso não foi da minha índole, pelo contrário. A forma que está circulando nas redes sociais, na imprensa... que eu usei a palavra “macaco” ao me dirigir a ele... de forma alguma eu falei aquilo. A palavra direcionada foi “palhaço” e não “macaco”.
Pelas imagens, o irmão de Natan, Adrierre, aparece cuspindo no segurança e em seguida gritando: “Olha sua cor!”. Ontem, ele se declarou arrependido.
— Estava com os ânimos exaltados na hora do jogo e quero pedir perdão a ele, por todos os insultos que eu fiz, pelo cuspe que eu proferi. Aquilo não é da minha índole —afirmou.
ATLÉTICO PODE SER PUNIDO
As desculpas de Adrierre não se limitaram ao segurança. Ele as estendeu aos torcedores atleticanos e cruzeirenses. Muitos cobraram sua exclusão do estádios nas redes sociais.
No dia seguinte após o ocorrido, Fábio Coutinho, de 42 anos, disse que foi situação mais delicada em seu trabalho.
—A nossa intenção era barrar a ida dos atleticanos para uma área restrita, a área da imprensa, mas os atleticanos queriam passar de qualquer jeito —explicou.
De acordo com o procurador-geral do STJD, Felipe Bevilacqua, o Atlético-MG pode ser punido pela injúria racial proferida por seu torcedor.

Charge do dia - Miguez


NOS JORNAIS

 Senado aprova acordo entre Brasil e EUA para uso da base de Alcântara
 Fim do DPVAT divide opiniões
 Senado aprova acordo para uso da base de Alcântara
 Governo pressiona pela redução dos juros
 Câmara autoriza privatização de espigões
Brasil aposta na cúpula da Brics para fechar acordos
 Em manobra, senadora se diz presidente da Bolívia
Governo usa pacote do emprego para mudar regras trabalhistas
 MP do emprego amplia reforma de leis trabalhistas