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domingo, 2 de março de 2014

Cenas de um drama real - MARTINHO DA VILA

No Brasil, parte-se do pressuposto de que, sempre que ocorre um roubo, desde que não seja de dinheiro público, um negro é suspeito
1. Um rapaz negro caminha de volta para casa em uma rua suburbana do Rio de Janeiro. Um carro com um casal para à sua frente, a mulher grita: "É ele o ladrão!". Um homem salta apontando-lhe um revólver. É o policial Waldemiro Antunes de Freitas Junior que o obriga a deitar-se de bruços, faz a revista, constata que não encontra-se armado e o conduz à delegacia.
2. O delegado William Lourenço Bezerra o autua, apesar dos seus gritos veementes de inocência, mesmo sem o acusado estar com o produto do roubo. Era a palavra dele contra a dela, que prevaleceu.
3. Vinícius Romão de Souza é trabalhador empregado em uma loja como vendedor de roupas e é recém-formado em psicologia, além de ser ator que já participou de novela da TV Globo. É o orgulho da sua família, que ficou muito abalada com a notícia da prisão.
4. O rapaz é mandado para uma casa de detenção em outro município e lá permanece por duas semanas, entre assaltantes perigosos, presos por agressões e outros negros inocentes como ele.
5. O desespero da mãe e as andanças do pai por hospitais públicos, necrotérios e depósito de presos até conseguir descobrir onde o filho se encontrava e a notícia da prisão ser publicada pela imprensa.
6. O drama da mulher que o acusou, agoniada pela dúvida de que tinha ou não cometido uma injustiça ao reconhecê-lo, a ponto de desejar ir retirar a queixa, o que não o fez apenas por faltar o dinheiro para a passagem. Dalva da Costa Santos é pobre. O que lhe foi furtado foram poucos reais e um telefone celular desatualizado.
7. As reações de militantes do movimento negro e os protestos públicos dos amigos brancos do rapaz, o que levou o delegado Niandro Lima, titular da 25ª DP (Engenho Novo), a impetrar um habeas corpus, documento jurídico que tem o poder de libertar indivíduos que possam estar sofrendo alguma injustiça.
8. Procurado pela imprensa, o pai, Jair Romão, militar aposentado, declarou: "Eu sou espírita e perdoo a acusadora e o policial que prendeu meu filho". No Brasil, muitas vezes parte-se do pressuposto de que, sempre que ocorre um roubo, desde que não seja desvio de dinheiro público, um negro é suspeito. Por motivo da lentidão das nossas ações judiciais, o habeas corpus levou ainda um dia para ser cumprido.
9. Respondendo a um jornalista sobre os dias no presídio, Vinícius disse: "Assim que cheguei, tive medo, mas tremi mais quando fui abordado porque a arma estava apontada para mim e podia disparar. Eu sou inocente e sabia que a justiça seria feita. Por isso não me desesperei nem chorei".
    Questionado sobre discriminação racial, falou: "Racismo existe, mas o que posso dizer é que todos os meus amigos nunca colocaram um apelido discriminatório em mim. Tanto nos colégios particulares em que estudei como na faculdade, todos sempre me respeitaram e eu também me dei ao respeito. Na loja de roupas onde eu trabalho, dos 17 vendedores temporários, sou o único negro, e nas outras lojas, não há nenhum. Uma lição boa que tiro de tudo isso é aproveitar cada minuto simples da vida, como abrir a geladeira e beber um copo de água".
10. A alegria da família e dos amigos ao recebê-lo. Romão ergueu os braços de cabeça erguida, com os cabelos simbólicos cortados no presídio. Sem rancor, declara: "Não tenho raiva dela. Ela sofreu um assalto, estava nervosa, acabou me confundindo. Desejo muita luz e felicidade para ela".
Final. Vinícius atendendo a um freguês na Toulon, que o manteve no emprego, cena seguida pela cerimônia de colação de grau em psicologia. No letreiro do filme, apareceriam os amigos que o apoiaram e por fim uma imagem parada de Vinícius sorrindo e a frase: "O racismo existe".

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Para quem quiser - RUY CASTRO

RIO DE JANEIRO - Martinho da Vila está lançando um disco, "Enredo", em que canta os sambas-enredo que compôs para as duas escolas de sua vida, a Aprendizes da Boca do Mato e a Unidos de Vila Isabel --alguns, só agora gravados. É uma ótima ideia numa indústria, a fonográfica brasileira, que deprime pela falta de imaginação. Pois, aberta a porta, por que não um disco similar com Paulinho da Viola cantando os grandes sambas da Portela, inclusive o seu próprio --e campeão-- "Memórias de um Sargento de Milícias", de 1966?
    Outros veios poderiam ser explorados. Levei anos tentando convencer alguma gravadora a reunir em disco João Donato, acordeão; Johnny Alf, piano, e Paulo Moura, clarineta, inspirado num tipo de formação que eles tanto admiravam em 1950, quando estavam no Sinatra-Farney Fan Club. Nenhuma se interessou.
    Os americanos eram mestres em combinar dois nomes num disco, geralmente um cantor e um instrumentista --Crosby com Armstrong, Sinatra com Duke, Johnny Hartman com John Coltrane, Helen Merrill com Clifford Brown, Rosemary Clooney com Perez Prado, muitos mais. No Brasil, teria sido formidável acoplar Os Cariocas ao Tamba Trio, mas não foi possível. E por que Tom Jobim e Vinicius de Moraes nunca fizeram um disco juntos? (O ao vivo no Canecão, com Toquinho e Miúcha, não conta).
    Mas, se não tivermos pressa, talvez ainda vivamos para ver um disco reunindo João Gilberto e João Donato --quem sabe? Já juntar Leny Andrade ao trombonista Raul de Souza soa tão natural que é incrível ninguém ter pensado nisso ainda. E por que não combinar estilos? Rita Lee com Roberto Menescal. Wanda Sá com Erasmo Carlos. Leila Pinheiro com Marcos Sacramento. Orlandivo com Mart'nália. E os songbooks? Alcione canta Aldir Blanc. Ed Motta canta Marcos Valle.
    São só ideias. Para quem quiser.