Mostrando postagens com marcador História. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História. Mostrar todas as postagens

sábado, 27 de setembro de 2014

O Parafuso do Rádio

Pe. João Dias Rezende Filho

Teólogo, genealogista e pesquisador
Chego a casa de meu pai e o encontro com um livro nas mãos. Até aí nada demais, pois meu pai tem a leitura como um hábito. Chamou-me a atenção foi o título: Memórias de um Parafuso. Pedi-lhe o livro e, imediatamente, comecei a lê-lo. Grata surpresa! Páginas dignas de nossas mais altas tradições historiográficas nas quais pontificam, in aeternum, César Marques, Mário Martins Meireles e mais recentemente, o saudoso imortal da Academia Maranhense, o historiador e folclorista Carlos de Lima. Isto para ficarmos somente em três grandes historiadores/historiógrafos de nossa Atenas.
Na dedicatória da obra, leio: "Ao irmão João Dias com um forte do abraço do irmão" e vejo um parafuso desenhado ao lado da assinatura Elvas. Já ficam evidentes os traços de um artista que incorporou um apelido como marca inconfundível de si mesmo. O comendador José de Ribamar Elvas Ribeiro, nascido em 6 de setembro de 1931, autor das Memórias é "de um tempo em que se tinha quase nada e fazia-se quase tudo" como diz em umas das quatro epígrafes que adornam o pórtico da obra. Parafuso é comendador da Ordem do Mérito Timbira, comenda que coroa com justiça a Memória Viva do Rádio maranhense.
Parafuso narra em prosa límpida e pontilhada de humor e picardia, a história não aprendida nos bancos escolares e universitários e sim nas lides diárias de quem fez e faz a vida do rádiode nossa terra. O autor-Parafuso (ou seria o Parafuso-autor?) é o protagonista de uma oficina onde um forte "parafuso sextavado, rosca soberba, se não tiver buraco eu faço um na hora e comigo só chave de boca e eu gosto..." (são palavras do próprio Elvas Ribeiro). No Prefácio da excelente obra de alentadas e divertidas 366 páginas, Élcia Cutrim de Jesus afirma: "As Memórias de Elvas Ribeiro entrelaçam-se a própria história a radiofonia maranhense e brasileira" (p.3). Um verdadeiro monumento ao nosso rádio, que teve início em 1939, quando o Sr. Paulo Ramos, então interventor federal no Maranhão, assinou o decreto instituidor da Estação Transmissora P.R.J. 9 - Rádio Difusora do Estado do Maranhão, esta obra preenche uma lacuna em nossa combalida memória pátria tão cheia de, infelizmente, e aí vai o neologismo que, talvez, nem filho meu seja, deslembranças.
Aquele que topar percorrer estas Memórias de um Parafuso, provavelmente, concluirá a leitura com a sensação de ter presenciado parte da História do Maranhão registrada e espalhada pelas ondas do rádio... Episódios pitorescos como o protagonizado pelo locutor e apresentador Aldir Doudement, o chamado episódio da Melca, que não transcrevo para não estragar a surpresa, fazem rir até o mais sisudo e carrancudo frade. Vale a pena conhecer, ou reconhecer para aqueles que viveram ou mesmo protagonizaram os fatos, os episódios e personagens que fizeram a história deste importante veículo que antes do boom da Televisão e da Internet dominava a mídia e reinava absoluto como meio de comunicação, informação e entretenimento nos lares de todo Brasil.
Um dos mais marcantes fatos narrados por Parafuso, dentre aqueles que nestas últimas quadras do século a pouco findado se sucederam, foi o terrível acidente com o navio Maria Celeste, de bandeira norte-americana, que chocou a população de nosso provinciano burgo, resultando do triste ocorrido 14 vítimas fatais. Há alguns anos, os restos mortais da velha embarcação permaneciam no canal de acesso à antiga Rampa Campos Melo. Parafuso nos conta como o rádio viveu e noticiou aqueles dias de pânico naquele 1954.
Dentre os personagens, Antônio Vieira, ilustre compositor e cantor, homônimo do não menos ilustre orador sacro, é um daqueles de quem Parafuso nos conta fatos e causos que precisavam estar registrados em tinta e papel. Edgar Fontenele, Escurinho do Samba, Japhet Nunes, João Carlos Nazaré, Lopes Bogéa, Bernardo Coelho de Almeida, Leonor Filho, Maria Inês Pires de Sabóia, Oliveira Ramos, Benito Neiva, Careca, Ary Oliveira, Dejard Martins são alguns dos que, com justiça, figuram nesta obra imortalizando a história jamais impressa do nosso radialismo. Até o finado Moto Bar do português Serafim, conspícua instituição boêmia de nossa cidade de outrora, está lá, gravado nas páginas das memórias indeléveis de Parafuso, redivivo no velho Largo do Carmo.
Ao ler esta obra já não é segredo para ninguém que o nobre comendador não é somente o príncipe dos radialistas maranhenses, mas também historiador de escol a nos legar em palavras o que aconteceu de melhor no rádio nesta Terra, onde de acordo com o Poeta, do alto das palmeiras cantam sabiás e... antigos cantores dos programas de auditório nas velhas "difusoras e timbiras", do alto das torres de transmissão, com vozes não menos maviosas que a dos pássaros do poema gonçalvino!
Parafuso, na quarta epígrafe, queixa-se que o rádio maranhense não tem memória. Caro Parafuso, eu ouso discordar de ti e dizer-te: não tinha memória, agora, tem! Desde o último 2 de julho, com o lançamento de teu livro, o rádio maranhense pode se gloriar, sem modéstia, que agora possui suas Memórias eternizadas nas tuas memórias! Concluída a leitura a sensação é de que um aparelho de rádio onde não houvesse este Parafuso, certamente, seria incapaz de funcionar a contento! Seria uma engenhoca sem utilidade!E quem diria que na cabeça de um Parafuso de rádio coubessem tantas histórias, hein?!
E-mail: joaopecegueirodias@hotmail.com

sexta-feira, 28 de março de 2014

Belém (PA): Antonio Lemos, o maranhense que construiu a cidade eterna

   

    Uma exposição em duas salas no Museu de Arte de Belém, MABE, ressuscita a figura lendária de um maranhense: Antonio José de Lemos - A Ressignificação do Mito (1913-2013). Nascido em São Luís, Lemos foi administrador (intendente) da cidade de Belém do Pará por 14 anos. Neste período, entre o final do século XIX e início do século XX, transformou a cidade e suja em uma das mais aprazíveis  aos “olhos do mundo”, como o destaca a historiadora Maria José Sarges.

    Antonio Lemos só tinha o ensino médio, concluído no Liceu.  É reconhecido como o melhor administrador da historia de quase 4 quatro séculos de Belém. Usufrui a posição de insuperável urbanizador da cidade.

    Um outro maranhense, Humberto de Campos,  foi um dos seus principais auxiliares, se espantava . Ele foi responsável pela transformação do Código de Postura da Cidade em Código de Política Municipal com ações previstas para elevar o bem estar da população. O fausto período da borracha lastreou economicamente sua administração.

    Intendente municipal   de Belém a partir de 1897, Antonio Lemos  percorreu uma trajetória política que desembocou em sua execração pública em agosto de 1912, quando trabalhadores incendiaram sua casa e o fizeram fugir “de pijama” para o Rio de Janeiro. O estopim da revolta foi a Empresa Americana de Veículos, concessionária da Intendência.
    Antes presidiu o importante Partido Republicano Paraense e foi proprietário de A Província do Pará que circulou até  a década de 80 do século passado. Protetor das artes e dos artistas se cercou de talentos como Bendito Calixto, Theodoro Braga, Emilio Goeldi,  e outros.
    Ao assumir a intendência decidiu que a cidade de Belém seria uma “petit Paris”. Nessa época as epidemias davam o titulo à capital paraense como “cidade da morte”, adensada pela chegada da peste em 1903. À cruzada higienista somou-se a empreitada do embelezamento urbanístico, proibindo moradores a apanhar mangas com “bode”, jogar dejetos no rio e assim por diante. Construiu então praças, quiosques, um refinado necrotério e boulevares, substituição dos bondes puxados por mula por elétricos, reurbanização do Bosque Rodrigues Alves com construção de castelos, lagos, etc, dentre tantas outras obras perpetuadas na cidade.
    Nascido em 17 de dezembro de 1843,  Antonio José de Lemos ingressou na Marinha aos 17 anos de idade em São Luís como escrevente de onde partiu na canhoneira “Ipiranga”. Daí sua vida tomou outro rumo. Participou da Guerra do Paraguai. Faleceu em 2 de outubro de 1913. Somente 70 anos depois os restos mortais do intendente foram transferidos do cemitério São João Batista para repousar no Palácio Antonio Lemos, na cidade velha de Belém. 

segunda-feira, 17 de março de 2014

Memória Revelada - Profissão de gari surgiu no Rio de Janeiro

Delma Pacífico 
A denominação do profissional de limpeza urbana veio do sobrenome do empresário francês Aleixo Gary


Rio - Pouco notados, apesar do uniforme laranja que usam, os garis do Rio de janeiro foram o destaque do Carnaval deste ano. A invisibilidade desses profissionais já foi tema de estudos. O livro  "Homens Invisíveis - Relatos de uma Humilhação Social", de Fernando Braga da Costa, mostra que pessoas que exercem atividades como faxineiros, ascensoristas e garis não são "vistos" pela sociedade. Mas, este ano, o Carnaval não foi igual aos que passaram no Rio. A cidade foi tomada pelo lixo, nos oito dias em que a categoria permaneceu em greve. O movimento, que foi do dia 1º ao dia 8 de março, terminou depois de longa negociação. Os garis tiveram aumento de 37% no salário-base, que subirá de R$ 802,57 para R$ 1.100, além do adicional de 40% de insalubridade. O vale-refeição passou de R$ 12 diários para R$ 20.
    No Rio, a propósito, foi onde nasceu a profissão de gari. Em 1876, o empresário francês Aleixo Gary foi o primeiro a fechar um contrato para a limpeza da cidade. Gary também foi o responsável pela criação do primeiro aterro sanitário da capital do Império, em 1885. O lixo era levado de barco para a Ilha de Sapucaia, perto de onde hoje é a Cidade Universitária, na Ilha do Fundão. O sobrenome de Aleixo Gary virou sinônimo de profissional de limpeza urbana. Na década de 40, o lixo passou a ser acondicionado em sacos plásticos. Até então era despejado em latões. Nesta época, também surgem os primeiros caminhões compactadores, a limpeza passa a contar com carros-pipa e os garis passam a trabalhar uniformizados. Até 1961 carrocinhas puxadas por burros ainda eram usadas na remoção do lixo domiciliar.
    Em 1975 a Celurb - Companhia Estadual de Limpeza Urbana, se transformou na Companhia Municipal de Limpeza Urbana - Comlurb, a maior organização de limpeza pública na América Latina, que tem a prefeitura da cidade do Rio de Janeiro como acionista majoritária. Hoje o quadro da empresa conta com 15 mil profissionais responsáveis pela limpeza da cidade; na época da fundação da Comlurb eles eram 4.500.
    Contrariando o estudo sobre invisivilidade, foi entre os garis que a cidade ganhou um de seus símbolos. Renato Luiz Feliciano Lourenço, o Renato Sorriso, ganhou fama ao sambar durante o desfile das escolas de samba na Marquês de Sapucaí. Suas performances tiveram início em 1997. O público o viu, vibrou e aplaudiu o gari que em vez de varrer a Passarela do Samba para a entrada da próxima escola, resolveu sambar. O chefe desistiu de repreendê-lo, foi vaiado quando o fez, e desde então Renato virou personalidade do Carnaval e da cidade. Sorriso apoiou a greve de sua categoria.