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segunda-feira, 13 de junho de 2016

Golpe contra liberdade de imprensa - BRENO ALTMAN

    A Secretaria de Comunicação Social do governo interino de Michel Temer resolveu, no final de maio, cancelar verbas publicitárias para sites e blogs considerados simpáticos ao Partido dos Trabalhadores.
    Não foram os únicos procedimentos destinados à degola dos setores de imprensa confrontados com o novo bloco de poder. A demissão ilegal do presidente EBC (Empresa Brasileira de Comunicação), suspensa liminarmente pelo STF, também integra o portfólio de providências para minar veículos de informação críticos ao impeachment.
    São igualmente sintomáticas, desta escalada antidemocrática, sentenças judiciais promulgadas por magistrados paranaenses, a pedido de agentes da Polícia Federal, censurando artigos do jornalista Marcelo Auler que denunciavam irregularidades na Operação Lava Jato.
    Não estão a salvo nem sequer repórteres do diário "Gazeta do Povo", de orientação antipetista, do mesmo Paraná: vários profissionais, em dezenas de cidades, estão sendo processados por denunciarem supersalários de juízes e promotores.
    Poucas são as vozes, contudo, a se erguerem contra tais arbitrariedades, com o vigor necessário, para barrar tamanho retrocesso em nossa esfarrapada democracia.
    A administração provisória se refastela com a possibilidade de esmagar qualquer dissidência jornalística que conteste sua legalidade ou defenda o retorno da presidente afastada, sob aplausos das facções mais sórdidas do reacionarismo.
    As correntes conservadoras, aliás, sempre trataram de estigmatizar os partidos de esquerda como inimigos da liberdade de imprensa. Salta aos olhos, no entanto, a ironia de os governos petistas terem continuado a encher as arcas dos grupos corporativos de mídia, mesmo quando vários desses já estavam envolvidos na ofensiva golpista.
    As velhas elites, porém, ao recuperarem a direção do Estado, varrem o pouco de pluralidade que, a duras penas, havia sido conquistado.
    Os fatos são escandalosos: o segmento de veículos progressistas recebeu, em 2015, menos de 1% do orçamento publicitário da União e das estatais, faturando menos de R$ 15 milhões sobre um total de R$ 1,87 bilhões. Não alcançou 8% do valor de anúncios na internet, ao redor de R$ 235 milhões.
    Falar em favoritismo ou abuso, portanto, não passa de escárnio.
    As principais democracias do mundo, além de regras antimonopolistas, adotam políticas capazes de expandir o direito de expressão para todas as correntes de opinião, por meio de garantias legais, compras governamentais, cotas de anúncios e créditos estatais.
    Um dos maiores entulhos herdados da ditadura é o regime de oligopólio da comunicação, com algumas famílias controlando quase 80% dos meios impressos, eletrônicos e audiovisuais, apesar de determinação constitucional em contrário.
    Seus laços com grandes anunciantes privados e agências de publicidade, obedecendo tanto a interesses comerciais quanto a alinhamentos ideológicos, tornam praticamente inviável, apenas por mecanismos de mercado, o desenvolvimento de uma imprensa independente.
    A diversidade editorial e informativa, assim, sem a salvaguarda de mecanismos públicos, fica à mercê da orientação corporativa de controladores privados.
    As decisões excludentes e vingativas do presidente em exercício, nesse sentido, mais que reiteração de antiga chaga autoritária, representam agressão à liberdade de imprensa e à democracia.
    Ao tentar amordaçar financeiramente a comunicação divergente, o senhor Michel Temer acaba por expor as entranhas mais pútridas do processo que até agora comanda.
BRENO ALTMAN, 54, é jornalista e fundador do site Opera Mundi

sábado, 12 de julho de 2014

Goleados na sala de aula - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

Nossos futuros professores se preparam pouco para enfrentar os tablados escolares; quando formados, carecem de educação continuada que aprimore as práticas de ensino

    A frase “os professores brasileiros não sabem ensinar” soa grosseira, autoritária, um acinte. Em todo momento, neste imenso país, alguém está ensinando a alguém as primeiras letras, lições de Geografia, questões de Gramática, problemas de Matemática. Cumpre-se a cada dia o sacerdócio e o ofício de ensinar, goste-se ou não dessas expressões. Mas sobram evidências de que temos problemas a resolver quando o assunto é como os conteúdos são ensinados em sala de aula. Não é questão da hora, mas vale relembrar.
    Os cursos de licenciatura têm – tradicionalmente – mais horas teóricas que práticas. Na graduação em Pedagogia, em 3,2 mil horas de aula, apenas algo próximo de 400 são numa classe. Conta simples, conclusão imediata. Uma vez no mercado de trabalho, o professor, não raro recém-formado, é tragado pelo tablado. Ganha de imediato uma, duas, três turmas nas quais vai exercer o ensino. Sem preparo, ou repete os modelos que recebeu quando era aluno ou se lança numa experimentação que nem sempre resulta em ganho para os estudantes.
    Em certo sentido, tem sempre um grupo de alunos pagando a conta pelo treinamento do professor, feito a fórceps ou debaixo de água fervendo, como se queira. Tendemos a achar essa conta algo natural, justa, tamanha a devoção que temos pelo que é informal, instantâneo, espontâneo, um futebol emotivo que pode terminar em 7 a 1. Mas o tempo – e as estatísticas – têm mostrado que o setor de ensino não faz um bom negócio em perpetuar essa cultura.
    Relatório da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indica que o Brasil dorme em maus lençóis. As faculdades são teóricas em demasia – muitas vezes para suprir as falhas do ensino médio –, e a formação continuada oferecida aos professores tem o mesmo cacoete. Sem uma quantidade razoável de cursos customizados – voltados para o “como se faz” –, o país perde terreno para nações que se ocupam da “prática de ensino”. Não se trata de um “palavrão”, um lesa-debate crítico, mas da garantia de que o conhecimento será dividido.
    Entre os países que abraçaram, sem preconceito, o chão de fábrica da sala de aula estão Finlândia, Cingapura e Coreia do Sul. Não são culturas escolares homogêneas, diga-se, mas as três nações alcançam bons resultados no teste internacional Pisa. O assunto deixa muitos educadores nos cascos, posto que se questiona a viva voz a supremacia do Pisa nas análises escolares, como se fosse palavra divina. Não é. Mas o Pisa tampouco deve ir para a fogueira.
    Um estudo lançado no início de julho confirma as impressões da OCDE e os resultados do Pisa. Formação continuada de professores no Brasil – do Instituto Ayrton Senna, em parceria com o Boston Consulting Group (BCG) – entrevistou 2,7 mil profissionais de educação e apontou que apenas 2% dos professores são tutelados por mestres mais experientes antes de ganharem uma regência. Sim – eles sentem necessidade de pistas sobre como lecionar de maneira mais adequada. Dizem que os muitos cursos que fazem pouco ajudam a lidar com a transmissão de conteúdos. Também reclamam falta de tempo para estudar. E que a formação recebida nas faculdades contempla pouco a realidade escolar.
    Acenam, por fim, uma última problemática – a altíssima rotatividade escolar, verdadeiro pesadelo para eles e para os educandos. A situação já tinha sido explicitada nas pesquisas da Prova Brasil 2011: quase 30% dos professores tinham dois anos na escola em que estavam lotados. Cerca de metade tinha menos de 15 anos de profissão. Apenas 14% vinham de uma carreira no mesmo lugar. É consenso na educação de que há uma relação íntima entre ensino e permanência do professor na escola.
    O quadro não é positivo: professores muito jovens, rodando de sala em sala, destituídos de modelos, afundados nos desafios do ensino. Com todas essas evidências, resta clamar por uma reviravolta. Faz sentido aquela piada de que nossas escolas seguem um modelo do século 19, os professores pensam como se estivessem no século 20 e os alunos são do século 21. Pode-se argumentar do quanto é saudável a convivência desses três modelos. Mas se tornou indefensável ignorar que bons exercícios, resolução de problemas, experiências, formas de pesquisa e um sem-número de técnicas bem aplicadas têm poder de levar a escola a cumprir seu destino, ensinando a pesquisar e garantindo o conteúdo para que o aluno siga adiante.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Do gigante acordado ao voto consciente - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

Como a insatisfação popular com os rumos da política, manifestada nos protestos de 2013, pode ser canalizada para as urnas em 2014?

    Dois acontecimentos marcaram o país no ano que terminou: a condenação dos políticos da cúpula do PT envolvidos no escândalo do mensalão e as manifestações de junho, que levaram cerca de 2 milhões de pessoas à rua no Brasil. O primeiro acontecimento foi marcante porque, pela primeira vez desde a redemocratização, diversas personalidades políticas envolvidas em compra de apoio político com dinheiro público foram condenadas pelo Supremo Tribunal Federal. O segundo, entretanto, tem um valor especial pela magnitude que tomou no meio do ano e pela expectativa de mudança que gerou na sociedade.
     É possível constatar a expectativa de mudança a partir de números. Recentemente, o Instituto Paraná Pesquisas realizou um levantamento a pedido da Gazeta do Povo e constatou que 79% dos brasileiros apoiam as manifestações que ocorreram em junho. A pesquisa indicou que os motivos dos protestos, segundo os entrevistados, foram corrupção (33%), deficiência do transporte público (23%), Copa do Mundo (20%) e situação econômica (16%). Mas, se por um lado os cidadãos do país viram com bons olhos as manifestações e as diferentes causas defendidas, por outro as pessoas também acham que as “jornadas de junho” não tiveram sucesso. De acordo com a pesquisa, 53% dos entrevistados consideram que as manifestações não mudaram o país e 68% afirmaram que não houve melhorias nas cidades em que vivem depois dos protestos.
    Essa percepção da maioria da população brasileira corresponde, em grande medida, à realidade. Muito pouco da “pauta prioritária” decorrente das manifestações foi votada no Congresso Nacional. A reforma política não chegou nem sequer a ser levada a sério pelos parlamentares. Os “cinco pactos” citados por Dilma Rousseff em junho quase nem foram mencionados no pronunciamento de fim de ano da presidente. O tema dificilmente será tratado em 2014, ano eleitoral. Um cenário como esse pode parecer desolador.
    Analisando agora, meses depois, parece decepcionante para os cidadãos que foram às ruas constatar que pouco se avançou. A frustração, entretanto, é o caminho daqueles que acreditam que profundas mudanças podem ser realizadas apenas indo para as ruas protestar.
    A realidade não funciona assim. A mudança da cultura política é possível, mas para fazê-la acontecer também é preciso atuar no longo prazo. Começa agora um ano de eleições presidenciais e estaduais. Até outubro haverá um amplo espaço para que a energia dos manifestantes de junho se materialize em ações concretas para melhorar a qualidade da política brasileira.
    O primeiro e mais simples caminho é não desperdiçar o voto com maus candidatos. Não aceitar trocar voto por dinheiro, jantares ou favores. Se um político precisa oferecer bens materiais para conquistar sua confiança, já começou errado ao tentar comprar o voto. É importante também gastar tempo para conhecer o passado do candidato, saber o que ele já fez pela comunidade e quais ideias defende. Se o político estiver tentando a reeleição, é bom saber como se comportou durante o mandato, como gastou o dinheiro da verba de ressarcimento, como se manifestou em votações importantes.
    Ainda é possível ir além do simples ato de votar. É possível ajudar os demais eleitores a também escolher de forma consciente seus candidatos – fiscalizando os atos daqueles que já estão no poder, analisando as contas de campanha, exigindo que os candidatos divulguem quem são seus doadores eleitorais. Há muito o que fazer com a energia das manifestações de junho. E será um desperdício se aquele potencial criativo não for reaproveitado.
    Votar bem é uma forma de evitar novos casos de corrupção, desvio de recursos públicos e escândalos políticos, como foi não apenas o mensalão, mas todos os episódios que presenciamos em 2013 e que indignaram o país.