quinta-feira, 19 de abril de 2018

Sobre 'Camapu' - Ave Caesar, morituri te salutant


 
Célia Maria no show "Camapu" , de César Teixeira
No show de lançamento do seu segundo trabalho solo gravado, o CD Camapu (Produção independente), o compositor maranhense César Teixeira professou valores sublimes. Exaltou a dignidade, a coletividade a que estamos destinados, a provisoriedade da existência humana, e, sobretudo, o amor, essa palavra de luxo nos dias contemporâneos.

Estranho ao palco formal, CT suprimiu o “boa noite” tradicional após a música de abertura no Teatro Arthur Azevedo. Logo revelou sua predileção pela informalidade dos botequins e zonas condenáveis, associadas à sordidez pelos corações que marcam passo. “Esse teatro foi feito com suor e sangue dos negros. Esse teatro é do povo”, resumiu o poeta criado na manjedoura da Madre Deus.

Fluiu então para o repertório combinado, o tal set list. Antes, foi até a coxia pegar um inseparável copo-companheiro.  Ao longo do show, os goles em público foram imperceptíveis. César chegou a dar um pito em um cabo-de-guerra que vociferava um texto desmiolado. Óbvio que com a elegância que só a arte e os ossos cobertos pela carne exatamente traduzem.

A dignidade sublinhada pelo artista em um intervalo do repertório foi expressa precisamente na postura da produção em relação ao mecenato. Realizado por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura, o patrocínio foi mencionado sutilmente em gravação na abertura do show. Ficou nisso. Nada de logos exageradamente servis no cenário ou agradecimentos de mesuras ruborizantes.

Descontraído ao ponto de quebrar o protocolo do roteiro traçado pelo produtor Josias Sobrinho, César Teixeira em hora e meia catou as composições feitas há décadas, guardadas no baú e que somente agora registra em estúdio. Músicas feitas no violão Gianini, muitas egressas da mesa dos bares, cantadas aos goles nos bancos da praça da Saudade, nos tempos de juventude rebelde com causa. Canções como 'Boi da Lua' (feita para os meninos abandonados pela cidadania), 'Bandeira de Aço' e outras tantas.

Para compensar o fiapo de voz, a poesia que emana da música de César Teixeira dá de dez e ainda sobra espaço para músicos e maestros como Rui Mário (sanfona e direção musical do disco e show) demostrarem seus talentos. O mesmo para intérpretes, como os convidados da noite: Lena Machado, Flávio Bittencourt, Rosa Reis, Criolina, Mairla Oliveira e Grupo Lamparina; e Célia Maria, diva das estações de rádio que ainda pulsa.  E mais a participação do mímico Gilson César, distribuindo camapu, a fruta, à platéia. Todos, pura emoção à flor da pele como Flávio Bittencourt cantando 'Dolores' e César cantando 'Luar do Mangue', acompanhado pelo celo de Jorlielson Lima.

Simples como o ar, a música de César segue para a eternidade, flamejante, sem puir, quase etérea como as coisas engendrada pelo coração. Para ser ouvida nas ilhas do Maranhão e se espalhar pro mundo inteiro. Ave Caesar, morituri te salutant (Salve Cesar, os que vão morrer te saúdam)

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