sábado, 7 de janeiro de 2017

Obituário - Morre o escritor argentino Ricardo Piglia, aos 75 anos

    Morreu nesta sexta-feira o escritor argentino Ricardo Piglia, aos 75 anos, vítima de uma parada cardíaca, segundo o jornal "Clarín". Considerado um dos maiores escritores do seu país, ele tinha sido diagnosticado com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) em 2014. Envolvido em todas as frentes da literatura, Piglia escreveu romances, críticas, ensaios e roteiros, apresentou programas de TV e ainda atuou como professor de literatura da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, por 15 anos.

    Nascido em Adrogué, na província de Buenos Aires em 24 de novembro de 1941, ele passou seus últimos meses na capital argentina por causa da doença que ataca os neurônios que controlam os movimentos musculares. Contudo, o autor se manteve lúcido e trabalhou quase até o último momento. Desde o ano passado, ele travou uma batalha judicial contra o seu plano de saúde, que não queria pagar remédios que faziam parte do seu tratamento. Até uma petição online foi criada para pressionar o plano.


    Após publicar livros de contos na década de 1960, foi com o romance "Respiração artificial", de 1980, que Piglia colocou seu nome entre os principais autores latino-americanos da geração posterior ao "boom", de Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes e Mario Vargas Llosa. "Respiração artificial" é um romance polifônico regido pelo narrador Emilio Renzi, personagem que voltaria em várias outras obras do escritor, e tem como cenário a ditadura argentina iniciada em 1976.


    Entre os cinco romances, que escreveu de 1980 a 2013, Piglia publicou muitas obras de ensaios dedicados a escritores, a reflexão sobre a arte da escrita, a crítica literária, a tradução e a edição. Em 2012, ele apresentou uma série de quatro programas chamada "Cenas do romance argentino", em que se debruçou sobre obras de Roberto Arlt e Macedonio Fernández, entre outros. Cada episódio teve cerca de 200 mil espectadores, número expressivo para o país.


    Desde que foi diagnosticado com ELA, uma doença degenerativa, Piglia acelerou seu projeto de escrever a sua autobiografia, intitulada "Diários de Emilio Renzi" e dividida em três volumes. O primeiro, "Anos de formação", saiu em 2015, e o segundo, "Anos felizes", foi publicado em setembro do ano passado. Ambos permanecem inéditos no Brasil. A ideia de publicar o diário como Renzi, e não Piglia, veio durante as filmagens do documentário "327 cadernos". O diretor Andrés Di Tella acompanhou Piglia na abertura e leitura de seus diários desde a adolescência.

ROMANCE POLICIAL


    O romance policial era o gênero em que o autor se sentia mais à vontade para colocar suas ideias sobre sociedade e política. Piglia, inclusive, criou um estilo só dele, que batizou de "ficção paranoica" - e que tem raízes na inquietação provocada pelos regimes militares da América Latina. Nas tramas do escritor, a investigação e as consequências dos crimes são sempre mais importantes do que a sua solução.
"Gosto muito do gênero policial, porque parte de algo que não se sabe, devemos descobrir algo. O leitor avança com o narrador, porque o narrador não sabe de tudo desde o início. Sempre começo com uma incógnita", disse ele ao GLOBO em 2014.


    Em outra entrevista, afirmou que os gêneros mais populares, como o policial e a ficção científica, podem ser lidos como os grandes críticos do capitalismo.

    "Eles renovaram a relação entre literatura e política, que esteve sempre muito ligada à tradição do romance social, sobretudo na América Latina", disse, em 2011. "O romance policial, por exemplo, capta muito bem o funcionamento da sociedade, as relações infrapolíticas entre poder, dinheiro, corrupção delito, crime. Ele se aproxima do núcleo de funcionamento de uma sociedade".

As principais obras de Ricardo Piglia

"Respiração artificial" (1980)

Primeiro romance do escritor, a trama gira em torno dos "papéis de Ossorio": um conjunto de antigas cartas guardadas entre os segredos de uma poderosa família. Na obra, o narrador Emílio Renzi busca desvendar a verdadeira história da Argentina. "Respiração artificial" foi apontado cinquenta escritores argentinos como um dez melhores romances da

"Dinheiro queimado" (1997)

Em 1965, o assalto a um carro-forte em Buenos Aires foi cometido por um bando de criminosos liderado por Malito e que tinha, na sua retaguarda, policiais e políticos corruptos. Os fatos reais se tornam matéria-prima para o romance de Piglia, que consultou arquivos confidenciais para elaborar a obra.

"Formas breves" (1999)

Em onze textos curtos, o ficcionista Piglia encontra o crítico Piglia para refletir sobre a obra de autores da literatura moderna argentina, como Macedonio Fernández, Jorge Luís Borges e Roberto Arlt, além de clássicos da modernidade, de James Joyce a Franz Kafka. O escritor também retoma uma reflexão sobre o gênero do conto e articula a relação

"O último leitor" (2005)

Nos seis ensaios que compõem "O último leitor", Piglia identifica várias modalidades de leitura na tradição literária ocidental. É uma história bastante pessoal, nada sistemática, de situações de leitura encenadas em textos centrais ou marginais da literatura, de "Dom Quixote" a "Madame Bovary".

"O caminho de Ida" (2013)

O romance se passa no campus de uma prestigiada universidade na Costa Leste americana e bebe bastante na experiência de Piglia como professor na Universidade de Princeton. À convite de uma professora, Ida Brown, Emílio Renzi desembarca na instituição para dar aulas sobre um escritor de língua inglesa que viveu na Argentina no século XIX. 

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