domingo, 15 de dezembro de 2013

Pão, circo e violência - GAUDÊNCIO TORQUATO


    A historinha é conhecida. Vespasiano, o imperador, em 22 de junho de 79 d. C., pouco antes de morrer, em carta ao filho Tito, aconselhava-o a concluir a construção do Colosseum(Coliseu), que daria a ele “muitas alegrias e infinita memória”. Pois, entre um banheiro, um banco de escola ou um estádio, o povo preferia sentar nas arquibancadas deste último. O conselho se fundamentava na ideia de que seduzir a plebe com pão e circo era a melhor receita para diminuir a insatisfação popular contra os governantes. Tito acabou inaugurando o famoso monumento, no centro de Roma, com 100 dias de festa. Descortinava-se, ali, a era do “panis et circensis”, que consistia em proporcionar, naquela arena, espetáculos sangrentos entre gladiadores e distribuição gratuita de pão. Implicava alto custo aos cofres do Império, com elevação de impostos e economia destroçada, mas a prática populista emprestava enorme prestígio aos imperadores romanos. É sabido que os jogos, ao longo da história da Humanidade, funcionaram como verniz para ilustrar a imagem de governantes. Hoje, a estratégia para cooptar a simpatia das populações por meio das artes/artimanhas e do entretenimento continua recebendo atenção de administradores públicos de todos os quadrantes. 

    "O conselho se fundamentava na ideia de que seduzir a plebe com pão e circo era a melhor receita para diminuir a insatisfação popular contra os governantes.”
    Não por acaso, nossas arenas esportivas, que se preparam para abrigar os jogos da Copa de 2014, deverão colorir o portfólio de feitos do governo. O que tem mudado na paisagem dos espaços lúdicos não é a ambição dos condutores dos Estados de alçar os píncaros da fama, mas o comportamento das plateias. Espectadores que, outrora, fruíam a catarse dos embates esportivos, exaltando ou deplorando a performance de contendores, tornam-se eles próprios competidores, lutadores, gladiadores, disparando uns contra outros não apenas a arma das imprecações, mas armas de fogo e partindo para a violência física. A alteração comportamental das pessoas que vão aos estádios é preocupante, principalmente em nosso território, que elege o futebol como esporte nacional, e se depara, a cada campeonato, com os novos sujeitos, as chamadas torcidas organizadas. O fenômeno toma vulto ante o risco de o Brasil vir a ser, por excelência, o palco da violência futebolística, pela constatação de que o aparato da segurança pública tem sido ineficaz para debelar a desordem e a pancadaria nas arquibancadas, a par de medidas paliativas, como cerceamento de torcedores a estádios, majoração de ingressos, jogos com portões fechados, perda de mando de campo e multas aos clubes. 
    Pouco adiantará administrar as tensões e conflitos sob o escudo policial-repressivo. Como se diz no vulgo, o buraco é mais profundo e está em baixo. A mobilização de pessoas para formação de grupos e a organização de torcidas obedecem a nova ordem que impregna a dinâmica social no mundo contemporâneo. A competição assume posicionamento singular em todos os setores, espaços, núcleos, categorias profissionais e classes sociais. As massas fragmentam-se em núcleos, cada qual envergando bandeiras, discursos, uniformes, armas e instrumentos. Os avanços civilizatórios nos campos da macroeconomia, da política e da cultura abrem comportamentos diferentes, multiplicando as pequenas organizações sociais e gerando novos pólos de poder. Os espaços urbanos ganham novos contornos, a esfera do trabalho traz novos desafios e a busca de uma identidade passa a ser central para os indivíduos, principalmente os jovens, motivados a expressar valores como masculinidade, coragem, companheirismo, coesão, solidariedade, sentimento de pertinência a um grupo. Fazer parte de torcidas, como a Mancha Verde, os Gaviões da Fiel, a Independente, passou a ser referência para habitantes de cidades congestionadas, carentes de serviços e de lazer. 
    Ao escopo semântico – onde se agrupam as agruras sociais – adiciona-se uma estética de diferenciação, caracterizada pelas cores – o verde, o vermelho e preto, o preto e branco, o azul, o amarelo canarinho – os símbolos (gavião, porco, urubu, galo, raposa, coelho, timbu, baleia, leão), a vestimenta com os dizeres da moda, o estilo de andar, de pensar, de perambular em bandos, e, fechando o circuito, a espetacularização midiática, por meio da qual os torcedores poderão ver nas telas de TV seus gestos, feições alegres ou crispadas de ódio e ouvir gritos de guerra. Condenar as turbas com designativos de vândalos, bandidos, selvagens, adensar forças policiais em estádios, continuar a usar meios tradicionais, como punição a clubes, não conseguirão eliminar a violência das torcidas organizadas. Mais cedo ou mais tarde, os atos voltarão. O disciplinamento e a ordem hão de levar em conta a elevação de padrões comportamentais, ancorada no esforço de educação (reeducação) de torcedores fanáticos. Não se trata de implantar meras ações de marketing cultural – eventos festivos e associativos para alinhamento dos torcedores ao espírito do clube – mas de um amplo programa com o objetivo de compor um ideário voltado para engrandecer o espírito da democracia, com respeito aos princípios da ordem e disciplina, que não devem ser incompatíveis com o entusiasmo das torcidas. 
    É evidente que ante a moldura de extrema competitividade e crescente agressividade entre grupamentos sociais, um esforço nessa direção não será tarefa fácil. O que aqui se propõe é uma ação cívica dos clubes de futebol na tentativa de ajudar o Estado brasileiro a melhorar a argamassa do edifício da cidadania. É inimaginável que torcidas se vejam como inimigas tomadas de ódio e virulência; e que o sarro tirado por um bandeirinha na direção de um grupo nas arquibancadas, o apito errado de um juiz, um ato menos educado de um policial ou um xingamento de um torcedor sejam motivo para a pancadaria. Nem Vespasiano nem Tito imaginariam que, um dia, o dístico “panis et circensis” seria acrescido de “violentia”. Fosse assim, o velho Coliseu não estaria em pé.

MANCHETES DOS JORNAIS

Estado
O Estado do MA:Governo do Estado centro orçamento no Viva Maranhão
Região
Jornal do Commercio:Em cada esquina há uma senzala
Meio-Norte:Benefícios do governo crescem 1.499% no PI
O Povo:Cid - O dilema dos prazos apertados
Nacional
Correio Braziliense:Mais dinheiro para a casa própria em 2014
Estadão:Ações no STF dão à Corte protagonismo na reforma política
Estado de Minas: o inferninho voltou
Folha:Eleição faz Alckmin dobrar gasto mensal com propaganda
O Globo:Famílias têm mais renda e também mais dívidas
Zero Hora:Desarmamento, 10 anos depois : Estatuto ajudou a estancar mortes por arma de fogo

sábado, 14 de dezembro de 2013

Um amor que não acabou - MARCELO RUBENS PAIVA

Paulo Mendes Campos é preciso. E preciso quando descreveu o fim de um amor em O Amor Acaba. Mas impreciso quando atesta que todos têm um fim. Nem todos acabam. Um amor, sim.
    Quer um programão para as férias? O cineasta Richard Linklater nos proporciona uma experiência cinematográfica sem precedentes: assistir na sequência aos filmes Antes do Amanhecer (de 1994), Antes do Pôr do Sol (de 2004) e Antes da Meia-Noite (de 2013), todos com os mesmos atores, Ethan Hawke e Julie Delpy, sobre o mesmo casal, o americano Jesse e a francesa Celine.
    No primeiro filme, eles se encontram num trem para Viena. Decidem descer e arriscar uma história de amor por uma noite apenas. Passeiam pela cidade, falam sem parar. No segundo, eles se reencontram dez anos depois em Paris, engatam uma história não mais por uma noite. Que é revista na década seguinte na Grécia, no terceiro filme.
    Feitos pela mesma equipe, eles têm o mesmo jeitão: planos longos, externas, diálogos intermináveis e um debate arriscado sobre as diferenças de gêneros, americanos e europeus, Dionísio e Apolo. Cada filme se passa num momento da história (guerra da ex-Iugoslávia, o debate ecológico e a decadência financeira do euro), percorre o platonismo dos inconsequentes 20 anos, a busca por um amor sólido aos 30, e a crise dos 40 pautada pelo questionando se ele acaba, sobre ruínas gregas. Passam pelo amor sonhador, o real e o pactuado.
    Assim como os atores, o diretor-roteirista cresceu e nos coloca os dilemas de uma jornada com que muitos de nós se identificam. Assim como eles, tivemos 20, 30 e 40, sonhos, arrependimentos, mal-entendidos e amores casuais que poderiam ter rendido. Compre ou alugue, ejete a criançada, chame a patroa e... Boa sorte. Não esqueça dos lencinhos de papel em mão.

*
    A escritora Margarita Robayo escreveu sobre seus romances com homens mais velhos: "São como qualquer namorado, só que mais felizes". Oona escreveu sobre o marido 36 anos mais velho: "Gargalhar é um dos maiores presentes que Charlie me deu. Minha infância não foi nada feliz. Ele é meu mundo".
    Uma das histórias de amor que derrubam os prognósticos fatalistas e das mais lindas que existiram foi protagonizada por uma das mulheres mais lindas que já existiu, Oona O'Neill, Lady Chaplin, a senhora Charlie Chaplin, filha do maior dramaturgo americano, Eugene O'Neill (Longa Jornada Noite Adentro), Nobel de Literatura de 1936, que a abandonou quando ela tinha 4 anos de idade com a mãe, a escritora Agnes Boultyon, e um irmão mais velho que se matou.
    Oona se mudou na adolescência para Nova York. Circulava nos anos 1940 com uniforme da Brearley School (saia plissada xadrez, meia soquete e sapatinho Oxford). Aparecia depois da lição de casa nos bares da boemia intelectualizada com Truman Capote. Era a musa do Stork Club, do tipo em que "pessoas comuns olham celebridades olhando no espelho".
    Era fotografada e paparicada como uma celebridade. Ou melhor, filha de uma. Se o pai, que nasceu num pulgueiro da Broadway e se tornou um anarquista radical e bebum, era avesso a badalações, a filha gostava do holofote. A psicanálise de coluna de jornal diria que, sufocada por um complexo de rejeição edipiano, queria chamar a atenção do pai que curava uma ressaca tomando outro porre.
    Era dos rostos mais perfeitos em 56 quilos e 1m62 de altura. Viajou pela Califórnia com o casal de amigos Carol Marcus e William Saroyan (de A Comédia Humana). Foram vistos nus pelas praias de São Francisco. Para aonde o pai se mudou.
    Já tinha namorado o cartunista da New Yorker, Peter Arno, e o cineasta Orson Welles, quando conheceu aos 16 anos J. D. Salinger.
    Salinger encaixava. Era mais velho (25 anos de idade), baladeiro, escritor como o pai (conhecido pelo circuito de revistas literárias) e rico, que entendia como poucos de problemas da adolescência e o sentimento de se sentir à parte. Mas Salinger queria atenção, Oona, chamar a atenção.
    Estourou a Segunda Guerra. Salinger, judeu, se sentiu na obrigação de combater Hitler e se alistou. No versão de 1942, Oona foi eleita a Debutante do Ano. Sua foto rodou o país. A repercussão foi tamanha que, pela primeira vez, recebeu uma carta do pai. Eugene não buscava a reconciliação, criticava a sua exposição.
    Salinger foi para academia militar. Trocaram longas cartas, algumas com mais de dez páginas. Ele mostrava para os colegas de farda fotos de Oona modelo e se vangloriava: "Essa é minha garota. Me casaria com ela amanhã, se topasse".
    Ela fez dois pequenos papéis em peças de teatro, até a mãe a matricular numa escola de artes dramáticas de Hollywood. Orson Welles a ciceroneava. Sua reputação já era conhecida sob o sol da Califórnia. Reclamou com a agente que todos que a entrevistavam queriam ir pra cama com ela. Até a agente descobrir que Chaplin precisava de uma jovem para um papel. Mandou Oona. Chaplin, com 54 anos, não a escalou. Mas escreveu na sua biografia que foi amor à primeira vista.
    Ela se encantou pelos olhos azuis do "velhote". Parou de responder às cartas de Salinger sem explicação. Ironia: virou garota-propaganda de uma linha de cosméticos cujo slogan era "fique linda para seu garoto soldado", enquanto o seu soldado não tão garoto partia para guerra.
    Oona se casou com Chaplin em 16 de junho de 1943, um mês e dois dias depois de completar 18 anos. Nunca mais atuou. Chaplin escreveu: "No começo fiquei com medo da diferença de idade, mas Oona não ligava". Eugene a deserdou e não permitiu que falassem dela. Salinger soube do noivado pelos jornais e fez o que mais sabia fazer, escreveu longas e sarcásticas cartas. Na biblioteca da Universidade do Texas, pesquisadores têm acesso à pilha de cartas desaforadas que escreveu. Escrevia e desenhava Chaplin como um velho desagradável.
    Salinger desembarcou no Dia D na Normandia. Viu o horror no front. Apesar do "escândalo", Oona e Charlie viveram inseparáveis por 35 anos em Beverly Hills e, depois, no exílio na Europa. Tiveram oito filhos. Geraldine é a mais velha. Ficaram juntos até ele morrer.
    Ela morreu alcoólica e reclusa em 1991, 14 anos depois do grande amor, de pancreatite aguda. Sempre se recusou a falar de Salinger. Está enterrada na Suíça ao lado de Chaplin. Seu quinto filho se chama Eugene (engenheiro de som que trabalhou com Rolling Stones, David Bowie e Queen), em homenagem ao pai, que nunca mais a viu. Aí está o exemplo de um amor que não acabou, apesar de tudo conspirar contra.Paulo Mendes Campos é preciso. E preciso quando descreveu o fim de um amor em O Amor Acaba. Mas impreciso quando atesta que todos têm um fim. Nem todos acabam. Um amor, sim.
    Quer um programão para as férias? O cineasta Richard Linklater nos proporciona uma experiência cinematográfica sem precedentes: assistir na sequência aos filmes Antes do Amanhecer (de 1994), Antes do Pôr do Sol (de 2004) e Antes da Meia-Noite (de 2013), todos com os mesmos atores, Ethan Hawke e Julie Delpy, sobre o mesmo casal, o americano Jesse e a francesa Celine.
    No primeiro filme, eles se encontram num trem para Viena. Decidem descer e arriscar uma história de amor por uma noite apenas. Passeiam pela cidade, falam sem parar. No segundo, eles se reencontram dez anos depois em Paris, engatam uma história não mais por uma noite. Que é revista na década seguinte na Grécia, no terceiro filme.
    Feitos pela mesma equipe, eles têm o mesmo jeitão: planos longos, externas, diálogos intermináveis e um debate arriscado sobre as diferenças de gêneros, americanos e europeus, Dionísio e Apolo. Cada filme se passa num momento da história (guerra da ex-Iugoslávia, o debate ecológico e a decadência financeira do euro), percorre o platonismo dos inconsequentes 20 anos, a busca por um amor sólido aos 30, e a crise dos 40 pautada pelo questionando se ele acaba, sobre ruínas gregas. Passam pelo amor sonhador, o real e o pactuado.
    Assim como os atores, o diretor-roteirista cresceu e nos coloca os dilemas de uma jornada com que muitos de nós se identificam. Assim como eles, tivemos 20, 30 e 40, sonhos, arrependimentos, mal-entendidos e amores casuais que poderiam ter rendido. Compre ou alugue, ejete a criançada, chame a patroa e... Boa sorte. Não esqueça dos lencinhos de papel em mão.
*
    A escritora Margarita Robayo escreveu sobre seus romances com homens mais velhos: "São como qualquer namorado, só que mais felizes". Oona escreveu sobre o marido 36 anos mais velho: "Gargalhar é um dos maiores presentes que Charlie me deu. Minha infância não foi nada feliz. Ele é meu mundo".
    Uma das histórias de amor que derrubam os prognósticos fatalistas e das mais lindas que existiram foi protagonizada por uma das mulheres mais lindas que já existiu, Oona O'Neill, Lady Chaplin, a senhora Charlie Chaplin, filha do maior dramaturgo americano, Eugene O'Neill (Longa Jornada Noite Adentro), Nobel de Literatura de 1936, que a abandonou quando ela tinha 4 anos de idade com a mãe, a escritora Agnes Boultyon, e um irmão mais velho que se matou.
    Oona se mudou na adolescência para Nova York. Circulava nos anos 1940 com uniforme da Brearley School (saia plissada xadrez, meia soquete e sapatinho Oxford). Aparecia depois da lição de casa nos bares da boemia intelectualizada com Truman Capote. Era a musa do Stork Club, do tipo em que "pessoas comuns olham celebridades olhando no espelho".
    Era fotografada e paparicada como uma celebridade. Ou melhor, filha de uma. Se o pai, que nasceu num pulgueiro da Broadway e se tornou um anarquista radical e bebum, era avesso a badalações, a filha gostava do holofote. A psicanálise de coluna de jornal diria que, sufocada por um complexo de rejeição edipiano, queria chamar a atenção do pai que curava uma ressaca tomando outro porre.
    Era dos rostos mais perfeitos em 56 quilos e 1m62 de altura. Viajou pela Califórnia com o casal de amigos Carol Marcus e William Saroyan (de A Comédia Humana). Foram vistos nus pelas praias de São Francisco. Para aonde o pai se mudou.
    Já tinha namorado o cartunista da New Yorker, Peter Arno, e o cineasta Orson Welles, quando conheceu aos 16 anos J. D. Salinger.
    Salinger encaixava. Era mais velho (25 anos de idade), baladeiro, escritor como o pai (conhecido pelo circuito de revistas literárias) e rico, que entendia como poucos de problemas da adolescência e o sentimento de se sentir à parte. Mas Salinger queria atenção, Oona, chamar a atenção.
    Estourou a Segunda Guerra. Salinger, judeu, se sentiu na obrigação de combater Hitler e se alistou. No versão de 1942, Oona foi eleita a Debutante do Ano. Sua foto rodou o país. A repercussão foi tamanha que, pela primeira vez, recebeu uma carta do pai. Eugene não buscava a reconciliação, criticava a sua exposição.
    Salinger foi para academia militar. Trocaram longas cartas, algumas com mais de dez páginas. Ele mostrava para os colegas de farda fotos de Oona modelo e se vangloriava: "Essa é minha garota. Me casaria com ela amanhã, se topasse".
    Ela fez dois pequenos papéis em peças de teatro, até a mãe a matricular numa escola de artes dramáticas de Hollywood. Orson Welles a ciceroneava. Sua reputação já era conhecida sob o sol da Califórnia. Reclamou com a agente que todos que a entrevistavam queriam ir pra cama com ela. Até a agente descobrir que Chaplin precisava de uma jovem para um papel. Mandou Oona. Chaplin, com 54 anos, não a escalou. Mas escreveu na sua biografia que foi amor à primeira vista.
    Ela se encantou pelos olhos azuis do "velhote". Parou de responder às cartas de Salinger sem explicação. Ironia: virou garota-propaganda de uma linha de cosméticos cujo slogan era "fique linda para seu garoto soldado", enquanto o seu soldado não tão garoto partia para guerra.
    Oona se casou com Chaplin em 16 de junho de 1943, um mês e dois dias depois de completar 18 anos. Nunca mais atuou. Chaplin escreveu: "No começo fiquei com medo da diferença de idade, mas Oona não ligava". Eugene a deserdou e não permitiu que falassem dela. Salinger soube do noivado pelos jornais e fez o que mais sabia fazer, escreveu longas e sarcásticas cartas. Na biblioteca da Universidade do Texas, pesquisadores têm acesso à pilha de cartas desaforadas que escreveu. Escrevia e desenhava Chaplin como um velho desagradável.
    Salinger desembarcou no Dia D na Normandia. Viu o horror no front. Apesar do "escândalo", Oona e Charlie viveram inseparáveis por 35 anos em Beverly Hills e, depois, no exílio na Europa. Tiveram oito filhos. Geraldine é a mais velha. Ficaram juntos até ele morrer.
    Ela  morreu alcoólica e reclusa em 1991, 14 anos depois do grande amor, de pancreatite aguda. Sempre se recusou a falar de Salinger. Está enterrada na Suíça ao lado de Chaplin. Seu quinto filho se chama Eugene (engenheiro de som que trabalhou com Rolling Stones, David Bowie e Queen), em homenagem ao pai, que nunca mais a viu. Aí está o exemplo de um amor que não acabou, apesar de tudo conspirar contra.

Na Coluna do ILIMAR FRANCO

Retrato 
O Vox Populi fechou pesquisa (8 e 9/12) na ilha de São Luís, 22% do eleitorado do Maranhão. O candidato ao governo do PCdoB, Flávio Dino, lidera com 38,5%. Luiz Fernando, candidato da governadora Roseana Sarney (PMDB), tem 28,2%. 

Somos um povo fútil? - HELOISA SEIXAS


Descuidamos de nossos museus, nosso patrimônio, nossos arquivos. Deixamos cair aos pedaços a Biblioteca Nacional. Mas adoramos automóveis. E televisores gigantes

    “No Brasil, tudo vira moda. Até manifestação de rua.”
    Ouvi essa frase de um motorista de táxi durante os acontecimentos de junho, e achei um exagero. Rebati, dizendo que o povo nas ruas tinha um significado imenso e ia propiciar a mudança de várias leis. Ele me olhou pelo retrovisor e respondeu que era verdade, mas que via muitos jovens, a caminho das manifestações, agindo como se estivessem indo para um bloco de carnaval. “É a onda do momento”, insistiu. “Daqui a pouco passa.”
    Em poucas semanas, as manifestações começaram a esvaziar. Os motivos eram muitos: a ação dos black blocks, as depredações, a violência da polícia, as denúncias de interesses escusos por parte de políticos, milicianos, traficantes. Mas não pude deixar de pensar nas palavras do motorista de táxi.
    Tornei a pensar nelas há algumas semanas, ao voltar de uma viagem de quase um mês à Alemanha. Ao desembarcar no Brasil, fui tomada pela sensação de que somos mesmo um país de modismos. Um povo fútil. Sei que é um clichê essa história de ir à Europa e voltar falando de “um banho de civilização”. Sempre fui contra isso. Mas, desta vez — depois de visitar 11 museus, duas exposições, de ir a um concerto de música clássica e de visitar uma gigantesca feira de livros —, alguma coisa aconteceu comigo.
    Acho que uma das razões dessa sensação foi a leitura, durante a viagem, do livro de Mario Vargas Llosa, “A civilização do espetáculo”. Embora em alguns pontos eu discorde do escritor, o livro me chamou a atenção para a destruição da cultura no mundo moderno, em favor do entretenimento. Esse conceito me deixou pensando no Brasil — nesse país que não lê livros, mas onde quase todo mundo tem celular. Onde se veem, nos bairros pobres, antenas parabólicas sobre casas miseráveis, onde há mais televisores do que geladeiras, e onde, em vez de bibliotecas, temos lan houses. País que parece ter passado, em massa, do analfabetismo funcional para o Facebook — sem escalas.
    Outro fator que contribuiu para a minha sensação, ao voltar, foi essa lamentável discussão sobre as biografias. Muito me entristeceu ver biógrafos e historiadores serem tratados como se fossem caçadores de fofocas, quando o que está em jogo, com essa distorção no Código Civil, é a memória — e a História — de nosso país. Lamentei ver artistas que sempre lutaram pela liberdade defendendo posições indefensáveis. Não pude deixar de comparar o que estava acontecendo aqui com a atitude dos alemães em relação ao seu próprio passado (e que passado!). Eles não escondem nada. Não são um país sem memória. Tinham todos os motivos para ser, mas não são.
    Nós somos. Descuidamos de nossos museus, nosso patrimônio, nossos arquivos. Deixamos cair aos pedaços a Biblioteca Nacional. Mas adoramos automóveis. E televisores gigantes, com telas de LED. Não podemos ficar um segundo sem falar ao celular, nem mesmo quando almoçamos (na Alemanha, os trens têm vagões em que é proibido ligar celulares e computadores, porque os bips incomodam). Quando viajamos — refiro-me à nossa classe média —, o que mais gostamos é de fazer compras. Já somos até conhecidos nas lojas de Nova York e Miami, onde os lojistas contratam vendedores que saibam falar português. E somos vaidosos. Queremos espetar botox no rosto e botar silicone nos seios. Já há meninas de 14, 15 anos, pedindo às mães que as deixem fazer isto. Nas ruas da Europa, não se vê essa quantidade de seios artificiais que temos por aqui. Estamos entre os campeões mundiais em número de cirurgias plásticas. Em cidades como Rio e São Paulo, há quase uma academia de ginástica em cada quarteirão. Precisamos malhar. E emagrecer. E não envelhecer nunca. E comprar tênis novos. Mas podemos passar um ano inteiro sem ler um único livro. Temos péssimos resultados em matéria de educação — em todos os sentidos.
    Voltei da viagem com essa sensação de que somos mesmo fúteis, superficiais, e me lembrei do motorista do táxi.
O Globo

MANCHETES DOS JORNAIS

Estado
O Estado do MA:Consórcio arremata lote para investir em energia no MA
Região
Jornal do Commercio:Avaliação de Eduardo é segunda melhor do País
Meio-Norte:Motoristas vão ter emprego por dois anos
O Povo:Como enfrentar os engarrafamentos com segurança
Nacional
Correio Braziliense:Punição a assassinos de Villela complica Adriana
Estadão:Preso no mensalão, Henry é o 3º a renunciar
Folha:Argentina limita carro importado e afeta Brasil
O Globo:Operação fim de ano: Ação contra caos aéreo sofre com falta de pessoal
Zero Hora:Um acidente de trabalho a cada 10 minutos no RS

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

MUSEU DE TUDO:Igreja Nossa Senhora da Penha . Rio de Janeiro. Foto Postal Colombo


No PAINEL da Folha de S. Paulo

Plano C Dirigentes do PT passaram a trabalhar com a hipótese de lançar candidato próprio ao governo do Maranhão para escapar da disputa entre o PMDB da família Sarney e o PC do B de Flávio Dino. Nesse cenário, a legenda deixaria para o 2º turno a definição de seu apoio.

Esquiva Os petistas querem evitar pressões que vêm sofrendo dos dois grupos. Parte da sigla foge do PMDB porque julga que já "pagou a fatura" com os Sarney. Esse time também quer distância de Dino, que negocia alianças com Eduardo Campos e com o PSDB, rivais de Dilma na eleição presidencial.

Três vezes sexo - MARIO SERGIO CONTI


Quanto mais funcional a sequência de sexo, mais redundante ela é. Fica-se a um passo da pornografia

    Deveria ser o primeiro dos mandamentos da sétima arte: não filmarás cenas de sexo. Elas tendem ao burlesco ("Instinto Selvagem"), ao doentio ("Crash", "Anticristo"), à manipulação ("Irreversível") ou ao canhestro (o ovo de "O Império dos Sentidos", Xuxa em "Amor Estranho Amor").
    Talvez o sexo só dê origem a filmes menores porque o cinema, cujo primado é o realismo, dificulte a imaginação. A lubricidade é mais mental do que física. Quanto mais funcional a sequência de sexo, mais redundante ela é. Fica-se a um passo da pornografia. Ou a dois do kitsch. E a quilômetros da arte.
    Três filmes recentes se aventuram na volúpia. Dois deles tratam do homossexualismo (lésbico em "Azul é a Cor Mais Quente" e gay em "Tatuagem"), enquanto "Jovem e Bela" reativa um embolorado postulado machista: a prostituição nasce de fantasias femininas, e não da necessidade de dinheiro.
    Dirigido por François Ozon, "Jovem e Bela" fala de uma menina rica de 17 anos que se prostitui, mas não se importa com o dinheiro. O filme insinua que ela faz isso porque o dinheiro serve de mediação para tudo na sociedade. Mais tola que essa ideia só a filmagem, que oscila entre o chique-publicitário e o erotismo de calendário da Pirelli.
    "Tatuagem", do pernambucano Hilton Lacerda, flagra um grupo de teatro marginal nos anos 70. Integrado por hippies, gays e artistas, ele desperta a curiosidade de um recruta que é casado e cuja mulher está grávida. O soldadinho se descobre gay, transa com o chefe da trupe, sua mulher tem um bebê sem cérebro, militares atacam a turma. Nem por isso o filme se abala: tudo é farra, tudo é engraçado. Com isso, "Tatuagem" não passa de propaganda da vida alegre dos libertários.
    "Azul é a Cor Mais Quente", de Abdellatif Kechiche, dura três horas, é sério e não perde o pique nunca. Perto dele, Ozon e Hilton Lacerda são carmelitas descalças que leram Lacan. No entanto, o sexo não é o tema de "Azul".
    Seu assunto é a vida de uma moça, Adèle, dos 15 aos 20 e poucos anos. Sua escola, seu trabalho de professora, sua família, seus amores e, também, seu sexo.
A menina é acompanhada de perto ao pegar o ônibus, conversar com as amigas, paquerar. Lentamente, a vida se torna mais complexa. Ela deixa de ser virgem com um garoto e não gosta. Beija uma colega e adora, mas ela a rejeita. Aí ela cruza o olhar com Emma e um relâmpago acende a paixão.
    O amor à primeira vista é uma noção romântica que o filme sustenta com criatividade e inteligência.
    Criatividade: como a paixão tem o sexo como fundamento, "Azul" mergulha nele com gosto. Acontece de tudo, ou quase, quando as moças se deitam. A autora da história em quadrinhos que serviu de base ao filme, Julie Maroh, disse que o sexo entre mulheres não é como o filme mostra. Mas quem garante que exista um jeito específico de fazer amor? Ficção é imaginação.
    Inteligência: não é indiferente que Adèle e Emma sejam lésbicas, mas o filme não perderia a garra se fossem homem e mulher. "Os poetas e seus críticos são iguais na cama", W. H. Auden escreveu, e o mesmo vale para homo e heterossexuais.
    A análise das diferenças sexuais é feita por meio de diálogos. Como quando um metido a intelectual discorre sobre o gozo feminino. Ou no xingatório das colegas adolescentes de Adèle ao suspeitarem que ela gosta de mulheres.
    O júri do Festival de Cannes, presidido por Steven Spielberg (um coxinha de credenciais impecáveis), deu a Palma de Ouro para o diretor e as atrizes principais de "Azul É a Cor Mais Quente". Faz sentido, ainda que o filme de Kechiche não seja típico da pseudo-arte, da estetização, da desconversa que grassa em festivais. "Azul" enfrenta a vida e a esclarece.Por isso, expandiu a maneira de ver o sexo.

MANCHETES DOS JORNAIS

Estado
Jornal Pequeno:PT tenta enquadrar "companheiros" que apoiam Dino para governador
O Estado do MA:Segurança do Maranhão ganha 437 novos policiais
Região
Jornal do Commercio:Governo age contra caos em aeroportos
O Povo:Cinco mortos em caçada policial
Nacional
Brasil Econômico:Indústria dividida sobre investimentos no próximo ano
Correio Braziliense: Cem mil brasileiros a mais na malha fina
Estadão:Inquérito do cartel chega ao STF e cita 3 secretários de SP
Estado de Minas:Ameaçados pela chuva
Folha:Bancos também pagaram propina, afirma delator
O Globo:Enchente anunciada: Estado já tem seis mil desalojados pelas chuvas
Zero Hora:Estado tem projeção de safra recorde em 2014

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Lambe-Lambe: Máquina registradora on-line com a fé


FOTO DO DIA - O barato do Uruguai


Uruguai evolui no enfrentamento das drogas - EDITORIAL O GLOBO


Será preciso muito cuidado para corrigir desvios, e também firmeza, a fim de que não haja retrocessos, com a volta a um método já comprovadamente falido

    A aprovação final pelo Senado do Uruguai do projeto de regulação do plantio, cultivo e consumo da maconha é o início de uma experiência no enfrentamento do problema da droga a ser acompanhada com extrema atenção.
    A ideia, defendida com energia pelo presidente José “Pepe” Mujica, sequer tem apoio majoritário na população, demonstram pesquisas. Mesmo a linha seguida pelo Uruguai, de colocar o Estado como principal protagonista no mercado legal da erva, é discutível, pelo que pode gerar em burocratização, e também devido ao risco concreto de ineficiência no manejo da questão.
    Porém, o sentido da experiência uruguaia está em linha com as melhores análises críticas feitas do tradicional método policial e militar de enfrentamento das drogas.
    Fracassada esta via — apenas os Estados Unidos gastam, sem êxito, bilhões de dólares por ano na repressão ao comércio e consumo de entorpecentes —, explora-se, em várias partes do mundo, outra abordagem: a da saúde pública.
    Não se discute a necessidade de combate ao tráfico pesado. A mudança está, entre outros aspectos, no acolhimento do usuário, sua descriminalização. A tese tem sido bem recebida na Europa — onde Portugal se destaca por reduzir danos no consumo de drogas, e a violência em geral, ao não criminalizar o viciado — e na América Latina. No continente, existe uma comissão com a presença ex-presidentes, FH entre eles, organizada para defender esta bandeira.
    O Uruguai vai além, ao legalizar a maconha cultivada sob controle do Estado. A medida visa a afastar o usuário do traficante, para que deixe de sustentá-lo e financiar o crime. Políticas deste tipo enfrentam grande resistência, apesar da evidente falência, no mundo, do combate à droga apenas com armas. No Brasil, o conceito da descriminalização do usuário foi absorvido na legislação, mas que é falha, ao não fixar parâmetros objetivos para ajudar o juiz a separar o traficante do viciado. O viés apenas repressivo no manejo da questão da droga está, por exemplo, num projeto aprovado na Câmara e já no Senado que permite a internação compulsória de usuários de crack — mesmo que pesquisas confiáveis demonstrem que a maioria dos craqueiros aceita o tratamento de forma espontânea.
    Washington continua inamovível em defesa do método militar e policial, e por isso a ONU se mantém na mesma posição. Mas o federalismo americano permite que alguns estados já tenham adotado modelos semelhantes ao uruguaio, com relação pelo menos à maconha.
    A política adotada agora pelo Uruguai não é, portanto, uma excentricidade, uma experiência absolutamente inédita. Nem uma solução mágica. Será preciso, então, muito cuidado para corrigir desvios, e também firmeza, a fim de que não haja um retrocesso. A alternativa do recuo na descriminalização é a aplicação de um método já comprovado como falido.

MUSEU DE TUDO: São Paulo. Brasil. Parque Anhangabaú

Foto Postal Colombo

MANCHETES DOS JORNAIS

Estado
Aqui-MA:Filas para atualização do Bolsa Família
Jornal Pequeno:João Castelo admite apoiar Flávio Dino para governador do MA
O Estado do MA:Justiça cassa liminar que autorizava táxi-lotação
O Imparcial: Banco do Brasil abre concurso para 8.700 vagas
Região
Jornal do Commercio:Policiais presos por servir ao jogo ilegal
Meio-Norte:Safra do Piauí deve crescer 76%
O Povo:Médicos cobravam por cirurgias em hospital público
Nacional
Brasil Econômico:Estímulo do BNDES terá juros mais altos em 2014
Correio Braziliense:Carros mais seguros só depois da eleição
Estadão:Justiça barra alta do IPTU; Prefeitura deve ir ao STF
Estado de Minas:Guarda municipal investigada 
Folha:Justiça veta alta do IPTU, e Prefeitura deve ir ao STF
O Globo:Enchente anunciada: Tempestade de caos e violência
Zero Hora:Carros mais seguros devem ficar para 2016

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Humor e rubor em noite de gala do FEstival VIVA

   
Nan Souza (de costa) entrega cota do imortal Alex Brasil

    O maestro sorri amarelo inclinando-se para frente, impulsionado pela força do tapa no ombro. Sacode a cabeça, como que assentindo as verdades propaladas pelo orador,o mesmo que lhe aplicou a pancada brincalhona, mas sorrateira. Insiste o orador, a pegar-lhe o braço, como a confirmar suas verdades anunciadas. Sorriso congelado, o maestro lança um olhar encabulado para a plateia inerte diante da oratória fadigante. Parceiros da fileira do lado esquerdo do palco estampam constrangimento.
    "Esse poeta negro de Caxias está sendo reconhecido por mais de 50 universidades dos Estados Unidos" exalta o orador referindo-se a Salgado Maranhão. "Caetano, Gil, Chico Buarque toda essa raça veio de festivais", afirmou elegante o tal. Entre essas e outras frases lapidares o vice-presidente do São Luís Convention e Visitors Bureaux, Nan Souza se superou no lançamento do CD e DVD do Festival Viva 400, patrocinado pelo Banco da Amazônia e Vale.
Cláudio Lima interpreta"Rosa dos ventos", melhor música e intérprete
    O maestro no caso é Alberto Dantas, ex-diretor do Departamento de Assuntos Culturais,DAC, da Ufma. Por longos minutos, Nan Souza confessou que temendo a violência optou por realizar o revival do Viva no Ceprama, discorreu sobre o mega projeto bancado pelo Basa do acervo de 400 músicas maranhense reunindo em um álbum com partitura, e digrediu sobre a importância do evento. Exalou preconceito, além do expressado em relação ao Salgado Maranhão, com o reggae reclamando o papel propulsor da carreira de Fauzy Beydoun a partir do festival, e outras amenidades.
    Empolgado até o último cabelinho do terno mal ajambrado, Souza mandou colocar cadeiras extras no Teatro Alcione Nazaré para esperar o público que projetava numeroso. Infelizmente, pouco mais de cem pessoas foram prestigiar o espetáculo. O elenco de clientes vips ficou restrito ao diretor-presidente do Boi Barrica, Zé Pereira Bucão.
    Desprestigiado até pela presidente do Convention, Marizinha Raposo, Souza prosseguiu improvisando um mestre de cerimônia na entrega simbólica da cota do material aos participantes classificados. Nem o equilíbrio belo e elegante da apresentadora Cecília Leite, devidamente vestida à caráter para a noite, evitou mais uma cena ruborizante: o imortal poeta Alex Brasil pediu para subir ao palco como co-autor da música "Me guarde". sincera, Cecília informou: o poeta quer subiu ao palco.
    Isso tudo após atraso de uma hora do início do espetáculo.

Assista Chico Nó canta "Berimbolado":

Lambe-Lambe: Aviso aos apertados no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, órgão da Secretaria de Estado da Cultura


Emissora da família do ministro Lobão festeja 50 anos com evento patrocinado por empresa de energia

    A Difusora faz aniversário e quem paga o pato é o contribuinte. Cabe como luva o texto recorrente de propaganda de móveis e eletrodomésticos para a artimanha montada parra comemorar os 50 anos da rádio do Sistema Difusora de Comunicação, da família do senador licenciado e ministro das Minas e Energia, Edison Lobão.
     Entre os patrocinadores da "Corrida volta da Lagoa", evento para marcar o aniversário da Difusora, está a Companhia Elétrica Maranhão, Cemar, concessionária de energia no estado do Maranhão. As relações entre a compradora de energia e o grupo político ao qual o senador Lobão pertence são pra lá de promíscua. Chegam a ser incestuosa.
    Para acobertar a linha direta entre os políticos e as empresas, a Difusora transferiu a responsabilidade do evento para a Nunes Publicidade LTDA, sendo que a organização, realização e supervisão técnica está a cargo da Eu corro - Eventos esportivos.
    Há outros patrocinados com relações estreitas com o político, como o Banco da Amazônia, Porto do Itaqui e Supermercado Mateus, e mais o Grupo Nordeste de Refrigeração. A predileção destas empresas pelo esporte esbarra no nome do proponente do patrocínio.
  Sob o comando do senador Lobão Filho (PMDB), primogênito do ministro, o sistema fermentou no século XXI, em termos estruturais, depois que o senador virou ministro. Sobretudo, graças à generosidade dos recursos dos cofres públicos destinados à propaganda institucional. O senador Lobão Filho reclama possuir talento extraordinário para os negócios, muito mais exitoso que para a política. Edinho, para o povo e íntimos, tem tentáculos pra tudo quanto é lado. Nos bastidores dizem que ele disputa poder com o filho do senador José Sarney, Fernando Sarney.



Um banho de Brasil para a Fifa - ELIO GASPARI

Com caviar, batedores e descortesias, o doutor Joseph Blatter constrói uma encrenca para a Copa

     Joseph Blatter, presidente da Fifa, pensa que é um chefe de Estado e leva uma vida de magnata. Viaja no avião da entidade, é recebido por presidentes de agenda porosa, atravessa algumas cidades precedido por batedores e durante os jogos de futebol fica em camarotes de VIPs onde garçons servem champanhe e caviar. (Na abertura da Copa da Confederações, felizmente, a doutora Dilma reclamou do mimo.)
    A Fifa não é um Estado, e se fosse, com sua crônica de propinas, estaria entre as cleptocracias da segunda divisão. Para os brasileiros, há a lembrança do ocaso de João Havelange, que dirigiu a instituição de 1974 a 1998, quando tornou-se seu presidente honorário. Renunciou em abril, na esteira de um escândalo. A Fifa é uma organização de cartolas e a Copa do Mundo tornou-se um empreendimento que move bilhões de dólares. Durante as manifestações de junho a imprensa internacional lembrou o fato de que a competição será realizada num país onde multidões protestavam contra o preço das tarifas de transportes públicos enquanto a entidade anunciava que entre os patrocinadores do evento estará a champagne Taittinger (US$ 100 a garrafa).
    A Fifa mudou o horário de sete jogos da Copa, atendendo a pedidos dos patrocinadores e das emissoras, interessadas em transmitir os jogos ao vivo. Jogo jogado, pois essa possibilidade estava prevista. As pessoas que compraram ingressos para os velhos horários e por algum motivo quiserem desistir perderão pelo menos 10% do valor pago. Ou seja, o sujeito marcou uma consulta no dentista, pagou adiantado, o doutor mudou o horário, e ele perderá 10% do preço da visita se quiser cancelá-la. Pouco custaria à Fifa livrar a clientela dessa tunga, até porque serão poucas as desistências.
    Quando a burocracia dos cartolas baixa no Brasil com tamanha desconsideração, cria antipatias desnecessárias. Blatter vende ingressos para uma população que o vê passando na rua com batedores (no Rio já chegaram a fechar as transversais da avenida Atlântica para que ele tivesse pista livre). Os ingressos para os jogos terão preços salgados, as companhias aéreas e os hotéis estão de olho no bolso da galera. Além disso, o evento colocará nas ruas milhares de policiais com o treinamento e os modos que mostraram em junho.
     Esses problemas são parte da vida nacional, não é preciso agravá-los. Blatter deveria vir ao Brasil por três dias, para viver como uma pessoa comum. Descobriria que o amigo que o hospeda no Rio ou em São Paulo paga mais IPTU do que ele na Suíça. Descobriria também que enquanto paga o equivalente a R$ 100 por ano para andar quantas vezes quiser em todas as autoestradas do seu país, aqui pagará R$ 40 por um só percurso do Rio a São Paulo, com direito a engarrafamento. Quando um brasileiro desce no aeroporto, rala na alfândega. Ele, não. Sendo suíço, verá que Pindorama é o único país do mundo onde a fila dos nativos para o exame de passaportes é maior que a dos estrangeiros.
    Quando um pedaço do Itaquerão desabou, Blatter pediu a "Deus e Alá" que garantam a entrega das arenas a tempo. Se os brasileiros se aborrecerem durante a Copa, o doutor não deverá invocar seus nomes em vão.

O poder de uma foto - FERNANDO RODRIGUES

BRASÍLIA - Cético por dever profissional, sempre fico constrangido quando uma notícia desperta em mim um sentimento de simpatia ou esperança. No meu ofício, o otimista é só um repórter mal-informado.
    Ainda assim, assumo o risco. Dilma Rousseff acertou na mosca ao convidar os ex-presidentes brasileiros para que fossem juntos ao funeral de Nelson Mandela, na África do Sul. A imagem da petista junto com Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, Fernando Collor e José Sarney nos remete a um Brasil que talvez se torne realidade um dia --um país no qual os desiguais convivam com urbanidade e os interesses da nação se sobreponham a divergências ideológicas ou partidárias.
    É claro que não é esse ainda o caso. Mas a cada reunião dessas de ex-presidentes, um passo a mais é dado. Pode parecer pouca coisa. Não é. Não existem cenas iguais do passado por uma simples razão: ex-presidentes nunca se encontravam nem se deixavam fotografar todos juntos. Passada a ditadura militar (1964-1985), nada justificaria os civis convidarem os generais para algum convescote.
     Mesmo no início do atual ciclo democrático, faria pouco sentido os sucessores imediatos de Fernando Collor chamá-lo enquanto os processos relativos ao período do impeachment ainda estavam inconclusos.
    Muitos devem ter torcido o nariz ao saber que Dilma convidou Collor e Sarney. Não é fácil defender seus governos. Só que os dois carregam a experiência de ter sentado na principal cadeira do Palácio do Planalto. Nos EUA, enquanto era vivo, Richard Nixon também participava de encontros de ex-presidentes --mesmo tendo deixado a Casa Branca acossado pelo risco de impeachment.
    Em política, ingenuidade é mortal. O Brasil continua basicamente igual ao que era antes da viagem de Dilma e seus antecessores à África do Sul. Mas a foto de todos juntos torna o país um pouco mais civilizado e urbano. Uma imagem, às vezes, é tudo.

MANCHETES DOS JORNAIS

Estado
Aqui-MA:Criança é morta com tiro na boca
Jornal Pequeno:Maranhão é bicampeão em ações movidas contra gestores públicos
O Estado do MA:ANS confirma a liquidação extrajudicial da Unimed
O Imparcial:Processos contra gestores públicos no Maranhão crescem 29% em um ano
Região
Jornal do Commercio:Mandela reúne opostos
Meio-Norte:Maior deságio vencerá licitação de ônibus
O Povo:96 linhas de ônibus têm rota alterada
Nacional
Brasil Econômico:Tombini diz que não há subsídio na gasolina
Correio Braziliense:Uma tragédia brasiliense em Orlando
Estadão:Justiça envia ao Supremo inquérito do cartel de trens
Estado de Minas:Guarda municipal se arma contra o crime 
Folha:Delator depõe e liga dois secretários de Alckmin a propina
O Globo:O funeral do conciliador: Sob inspiração de Mandela
Zero Hora:Rodovias estaduais - O terceiro verão sem pardais

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A CHARGE do dia (Cabalau)


Empresa panamenha é citada em inquérito que investigou Sarney

A Morgan & Morgan, empresa que administra a Truston International, proprietária do hotel que ofereceu emprego José Dirceu, é citada no inquérito da operação Faktor
Foto: Reprodução

















As investigações apontam um pagamento feito por Gianfranco Perasso à Morgan & Morgan no Panamá 
Daniel Favero  
    A empresa Morgan & Morgan, que administra a Truston International, proprietária do hotel Saint Peter - que ofereceu emprego com salário de R$ 20 mil para José Dirceu -, é citada no inquérito da operação Faktor, da Polícia Federal, que apurou supostos crimes financeiros cometidos pela família Sarney. Pelo menos US$ 26 mil teriam sido pagos a Morgan & Morgan por Gianfranco Antonio Vitorio Artur Perasso, envolvido na investigação feita pela PF.
Foto: Reprodução

Registro da Truston International no Panamá 

    Com escritórios em diversos países, alguns deles paraísos fiscais, a Morgan & Morgan, de acordo com as investigações, “atua com a blindagem patrimonial e constituição de empresas no exterior, possivelmente off-shores”. Uma das empresas administradas pela companhia é a Truston Internacional, detentora da maioria das cotas do Saint Peter. Tanto a Morgan quanto a Truston possuem o mesmo endereço: rua E, bairro Marbella, MMG Tower, 16º andar, na cidade do Panamá.
Segundo informações do Registro Público do Panamá, a empresa dona do hotel possui um capital de US$ 10 mil, divididas em 100 ações de US$ 100 cada. O presidente da Truston, segundo o documento, é Jose Eugenio Silva Ritter. Uma matéria divulgada pelo Jornal Nacional aponta que ele é auxiliar de escritório da Morgan & Morgan. Seu nome aparece na documentação de várias outras empresas ligadas a empresa onde trabalha.
    Ritter também aparece como sócio de empresas como a Lynden Management Group INC, a Arblos Management Corporation e a Hising Management S.A., companhias panamenhas que fazem parte de um consórcio detentor dos direitos de exploração de jazidas de ouro no Azerbaijão, que tem entre os diretores filhos do ex-presidente do país Heydar Aliyev, morto em 2003. O auxiliar de escritório também aparece como sócio da Internacional Energy Overseas Corporation (IEOC), que teria relação com supostos desvios praticados por Fabricio Correa, irmão do presidente equatoriano, Rafael Correa.
Faktor
Foto: Reprodução








Trecho do relatório da Polícia Federal que transcreve diálogo entre suspeitos
    A investigação da família Sarney teve início em 2006, após o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificar movimentação financeira “atípica” de R$ 2 milhões nas contas de Fernando Sarney (filho do senador José Sarney) e Teresa Cristina Murad Sarney, sua mulher. A operação inicialmente foi chamada de Boi Barrica, mas teve seu nome mudado para Faktor.
    Entre os investigados pela polícia estavam os empresários Gianfranco Antonio Vitorio Artur Perasso e Flavio Barbosa Lima, que são apontados como sócios e representantes de mais de uma dezena de empresas que seriam usadas para canalizar dinheiro desviado pelo suposto esquema que desviaria recursos de obras públicas.
    Em uma das escutas feitas pela polícia, Flávio liga de um orelhão para Fernando Sarney para falar sobre o monitoramento - uma vez que o grupo saberia que estava sendo investigado.  Fernando diz que “mais uma vez, o nosso amigo que está no exterior (Gianfranco) diga para ele com todas as letras... da seriedade das coisas, porque é meu grande medo você sabe disso, ..., tá certo?”.
Foto: Reprodução















Apesar do pagamento à Morgan & Morgan, Pf diz que família Sarney não declarou possuir contas no exterior
    Um e-mail interceptado pela polícia aponta que Gianfranco teria informado o pagamento de US$ 26 mil para a Morgan & Morgan, no Panamá. Entretanto, as investigações mostraram que nenhum dos envolvidos no suposto esquema maranhense tinha declarado à receita Federal possuir contas no exterior. Também não foram encontrados indícios de que dinheiro obtido de forma ilícita tenha sido enviado para fora do Brasil.
    Após a conclusão do inquérito, em 2008, 16 pessoas foram denunciadas pelo Ministério Público Federal (MPF), entre elas, Fernando Sarney e Gianfranco, mas os pedidos de prisão foram negados pela Justiça. Em 2009, o jornal Estado de S. Paulo foi proibido de divulgar informações sobre o processo contra a família Sarney, censura que ainda perdura.
    Em 2011, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou, no processo, as provas coletadas pela polícia. O relator do caso, ministro Sebastião Reis Júnior, concluiu que não foram encontrados elementos que justificassem a quebra dos sigilos, e considerou que os fatos deveriam ter sido melhor esclarecidos. Ainda de acordo com o magistrado, o Coaf apontou movimentação “atípica”, que não poderia ser confundida com “ilícita”.
    O Ministério Público recorreu da decisão, e a anulação das provas será analisada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), onde o relator deve ser o ministro Dias Toffoli. “Minhas expectativa é de que sequer seja aceito esse recurso extraordinário”, acredita o advogado que representa Fernando, Marcelo Leal. No seu entendimento, a polícia errou ao pedir a quebra de sigilos bancário e telefônicos sem investigar a denúncia. “Aqui a gente está falando da família Sarney, mas imagina qualquer cidadão comum... O Coaf emite um documento dizendo que não é crime... está uma movimentação suspeita, e saem quebrando o sigilo da sua vida inteira...”.
    O Ministério Público Federal informou que não pode falar sobre o caso porque o processo está sob segredo de Justiça.

FRASE DO DIA

"Não temos nada contra os negros, temos a favor de nós"
Marisa Haasbroek, moradora de Kleinfontein, comunidade de brancos holandeses a 40 quilômetros de Petrória, capital da Africa do Sul, que desconhece a morte de Nelson Mandela

CHARGE DO DIA - Jean Galvão (Folha)


FOTO DO DIA - Álbum de 30 anos da história do poder no Brasil