quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Tempo de Francisco - LEONARDO LICHOTE

No início de “Caravanas” (Biscoito Fino), na faixa “Tua cantiga”, o narrador de Chico Buarque põe em dúvida sua própria fala, num sofisticado jogo de espelhos no qual “rouba” versos de Shakespeare (“Ou estas rimas não escrevi/ Ou ninguém nunca amou”). Em “As caravanas”, que encerra o disco, o poeta volta a se questionar, atônito ao observar a opressão sem sentido que se dá nas praias da Zona Sul aos jovens negros (ou ao descobrir os sentidos presentes ali): “Tem que bater, tem que matar/ Engrossa a gritaria/ Filha do medo, a raiva é mãe da covardia/ Ou doido sou eu que escuto vozes/ Não há gente tão insana/ Nem caravana do Arará”.
      Este diálogo é apenas um da teia do disco. O fato de a primeira ser um lundu (ritmo originário da África que passou por um processo de “embranquecimento” nos salões da virada do século XIX para o XX) e a última ter, em meio à orquestra, a presença do tamborzão (ritmo originário das favelas, derivação do maculelê ao ser apropriado pelo funk carioca) acrescenta mais camadas ao álbum. Ou mesmo remete a conversas mais amplas: “Chico” (disco de 2011), terminava com a primorosa “Sinhá”, que tratava exatamente da complexidade da questão racial no Brasil. “Caravanas” carrega, enfim, essa densidade, pensando o termo como a concentração de muito em pouco espaço, como os facões e adagas malocados nas sungas dos moleques de “picas enormes” e sacos-granadas de “As caravanas”.
O disco traz apenas nove faixas, que se desenrolam em mil — para dentro de si e na relação com as outras. Vários fios o cruzam. Há o narrador que duvida (presente também em “Dueto” e em “Desaforos”); há as musas inalcançáveis (de “Tua cantiga”, “Blues pra Bia”, “A moça do sonho”, “Desaforos” e “Casualmente”); há a percepção tranquila da proximidade da velhice (“Jogo de bola”) se espelhando na potência do menino que brinca à beiramar (“Massarandupió”); há a observação social (a palavra “denúncia” seria redutora para um artista que trabalha em perspectivas bem mais profundas) do racismo de Estado e da elite — e também dos Estados e das elites, já que a canção toca em outras migrações que vão além da Zona Norte-Zona Sul, ao citar muçulmanos e ao fazer referência a uma cena de “O estrangeiro”, de Albert Camus, na qual um francês mata um árabe na praia (“As caravanas”). Há o amor que consta não só nas bulas, no evangelho, nos búzios, mas também no Tinder, no WhatsApp, no Face (“Dueto”). Há a ternura em resposta à ofensa, numa canção de amor não correspondido que se resolve aí, mas que pode ser transposta também para o universo das redes sociais e seu gosto pela maledicência (“Desaforos”).
Costurando todos esses fios, está o tempo, e a consciência que o compositor tem dele. É o tempo que Chico finge driblar (o que não consegue, assume com sábio bom humor) na melodia arisca como um menino peladeiro de “Jogo de bola”. A letra carrega a velocidade de raciocínio que as pernas não respondem mais: “Há que levar um drible/ Por entre as pernas sem perder a linha/ (...) Como quem tira o chapéu pra mulher que lhe deu o fora”. É com o tempo que Chico pinta “Massarandupió”, ritmando polissílabos como com vocábulos como “piá”, “psiu”, “xuá" sobre a melodia de Chico Brown, seu neto. O fato de ter trazido para o disco também sua neta, Clara Buarque (que divide “Dueto” com ele), reafirma que “Caravanas” se escreve sobre a pauta do tempo.
É no hoje que Chico se localiza para cantar o amor (possessivo, de entrega doentia) de “Tua cantiga”. É no instante impreciso e mágico do tempo chamado por Chico de “el encanto de la casualidad”, que se instala “Casualmente”, bolero sinuoso, parceria com Jorge Helder, que se passa em Cuba — não aquela para onde insistem em mandá-lo em meio ao não debate que toma conta do cenário político, mas uma Cuba remota da voz remota de uma mulher remota. Já a “mulher do sonho” flutua entre tempos, numa dimensão inatingível por seu amante. Igualmente inatingível a ele é a dimensão onde está a musa contemporânea do “Blues pra Bia” (“No coração de Bia/ Meninos não têm lugar”).
Os mais de cem anos que afastam o lundu do tamborzão, e os amores e as dores que se deram nesse tempo, são a matéria de “Caravanas”. A presença sutil do funk carioca é a maior ousadia formal no sentido de “atualização” (outra perspectiva redutora) da sonoridade de Chico. Os arranjos de Luiz Cláudio Ramos servem lindamente às canções e as colorem em diferentes paletas: a delicadeza do discurso de “Desaforos” conversa com a suavidade do vibrafone e do piano; a grandiosidade de “As caravanas”, que vai de Istambul à Maré, ganha sustentação na orquestração épica; “Massarandupió” tem elegância pop e praieira em seus sopros e cordas — reflexos do Jobim de “Wave”.
“Caravanas” crava, enfim, que Chico é um artista do presente — ao contrário do lugar em que alguns têm procurado localizá-lo nos últimos anos (especialmente após “Tua cantiga” e o aquecimento de ânimos com a acusação de machismo em sua letra), de ser alguém anacrônico em sua poética e em sua musicalidade. Apenas a compreensão limitada do “hoje” como sinônimo de “juventude” faz pensar algo diferente disso. Chico olha a canção do alto do tempo e com os pés no chão, como os grandes de sua geração.
 De O Globo

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