sábado, 31 de dezembro de 2016

Crítica: Salgado Maranhão e a poesia que vai além da lógica do discurso

O poeta Salgado Maranhão, por Cássio Loredano 

*Tom Farias
RIO - Salgado Maranhão vem materializando um “modus” de poetizar a realidade em que vive sem fugir do maior pressuposto do poeta: a profundidade temática e compostura poética. Com mais de uma dezena de livros publicados, todos de poesia, e um bom número de prêmios — entre Jabuti, Academia Brasileira de Letras e Pen Clube do Brasil —, sua veia lírica tem demonstrado uma versatilidade para temas como o amor, a sensualidade, o engajamento político, a natureza, a filosofia, a religião e, sobretudo, a fé no ser humano.

    Seus últimos trabalhos, “Avessos avulsos” e “Ópera de nãos”, só referendam a trajetória de um autor cada vez mais prestigiado pela crítica e adorado pelo público. O maranhense Ferreira Gullar, recentemente falecido, tratava Salgado como uma espécie de poeta da palavra. Para Gullar, a poesia salgadiana “não hesita em ir além da lógica do discurso”.

    Líder de uma geração de grandes autores, sob a benção de Torquato Neto, mas cujo ancestral é Solano Trindade, e que nos deixou seguidores como Éle Semog, Conceição Evaristo, Nei Lopes e Joel Rufino dos Santos, a saga do menino de Canabrava das Moças, no Maranhão, onde nasceu, define bem esta mistura de “casa grande com senzala”, de que ele tanto fala e parece se orgulhar.

    Sua carreira literária, iniciada com fervor em “Ebulição da escrivatura — 13 poetas impossíveis” (1978), tangenciou seu caminho poético, o mesmo que o levaria à música, ao teatro e ao cinema, sincronizando-o com a construção de uma “lírica de caráter universal”, como bem escreveu Heloisa Buarque de Hollanda.

    O tempero e o molho empregados no seu fazer poético, muito dominante em sua criação, desde “Mural de ventos”, têm a ver com a sua criatividade inata, com o atavismo da memória do antepassado fecundado sob os acordes dos cantadores de violas e repentistas, ao tempo da lavoura dos pobres pais — ele, comerciante e agricultor branco, ela, negra, herança da escravidão, e camponesa de feições simples mas de atitude altiva e guerreira.

    No caso particular de “Avessos avulsos” e “Ópera de nãos”, percebe-se que Salgado mantém o estilo que o vem consagrando mas com a diferença de que ele se supera e se refina a cada nova obra.

    Na abertura de “Avulsos avessos”, por exemplo, o poeta se apresenta belamente com o soneto “Um outro um”, já demonstrando ao que veio: “Se me desperto acordo em alvoroço / aquela voz que sinto nos meus ossos / uma pavana feita de alarido.” Na sequência, enfileira 53 poemetos sob o único título de “Cena verbal”, com pérolas que diz: "O amor é bárbaro feito um vampiro. / Ou uma cidade de lobos insurgentes”. Ou: “Do barro que a palavra acendeu teu nome / debuta esse veneno de cerejas”.

    Já em “Ópera de nãos” vemos um poeta ainda mais bem definido na sua carpintaria: é como se seus “lacres” fossem sendo rompidos e o que se desvenda é o seu “chão de mitos”. Em “Ilhéu”, bem ao seu feitio, ele escreve: “Ouço o mar afoitando a palavra; / a palavra que é pedra que voa”.

    Em Salgado Maranhão a sintaxe das palavras vai além do subordinação e da ordem estabelecida. Certamente aí está a genialidade de textos como “Viajor”, ou “Uivo” (“Em teu uivo há uma agonia / de bicho rasgando a placenta.”)
    
    É uma poesia que cada vez mais se eleva pela lírica do sublime.

*Tom Farias é jornalista e escritor, atualmente escreve uma biografia de Carolina Maria de Jesus

“Avessos avulsos”
Autor: Salgado Maranhão.
Editora: 7Letras.
Páginas: 80.
Preço: R$ 48.
Cotação: Ótimo.
“Ópera de nãos”
Autor: Salgado Maranhão.
Editora: 7Letras.
Páginas: 88.
Preço: R$ 43.
Cotação: Ótimo.

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