terça-feira, 18 de agosto de 2015

O protesto "Maria-vai-com-as-outras"- DAVISON COUTINHO




Ninguém foi às ruas defender as favelas, protestar contra a fome, pedir melhores hospitais


    Dia 16 de agosto de 2015. Data que para alguns significava o dia de pedir mudança, o dia do povo ir às ruas pedir o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Para mim, e para milhares de cariocas, significou um dia a mais de sol e praia. Antes de qualquer julgamento, lembro que não sou petista, não votei em Dilma, mas não posso concordar com o protesto que deveria ser a favor do Brasil.
    Até bandeiras do Brasil Imperial, pedindo a volta da família real ao poder, foram encontradas na manifestação.
    Também podiam ser vistas as 10 medidas anticorrupção divulgadas pelo juiz federal Sérgio Moro, coordenador da operação Lava Jato. Estou aplaudindo cada prisão de corruptos e corruptores e torcendo para que ninguém saia impune, e que se devolva o que foi tirado de nossa saúde, educação, e de todos os direitos. 
    Mas qual foi a finalidade dessa manifestação? Se fosse entrevistar todos os participantes, mais da metade não saberia nem responder o por que e contra o que estava protestando. Afinal, bater panela e manifestação está na moda.



Davison Coutinho
Davison Coutinho

    Sou morador da Rocinha, favela com mais de 200 mil habitantes - muito mais gente do que havia nas ruas protestando. Fui criado no arroz e feijão e, hoje, graças às oportunidades e força de vontade, estou cursando pós-graduação. Sou contra a corrupção e contra qualquer tipo de roubo, por isso estou apoiando e recolhendo assinaturas para que entre em vigor o projeto de cidadãos. A operação Lava Jato tem que ir a fundo e prender seja quem for.
    Mesmo sofrendo com as injustiças que nós, moradores de favela vivemos, tendo nossos direitos básicos negados, tendo que conviver com as diversas faltas em nosso dia a dia e ainda assistindo os ladrões do colarinho branco “nadarem” em dólares às nossas custas, eu não  compreendo a quem interessa e o que vai melhorar de fato ao país em tirar a presidente Dilma do poder. 
    Foram 54 milhões de votos, em um mandato que acabou de começar. Seria uma perda para o país se não fosse respeitada a escolha democrática do povo.
    Qual seria o ganho para toda a nossa nação? Colocar no poder o vice-presidente, Michel Temer, ou  entregar o país nas mãos de Eduardo Cunha, também citado na operação Lava Jato? Em cartazes nas manifestações, vimos apoio a Cunha, mesmo sendo ele o responsável por aprovar em uma de suas manobras a origem da corrupção que é o financiamento privado de campanha, mesmo sendo ele quem está tentando criminalizar ainda mais as nossas crianças com a redução da maioridade penal.
    Mais triste ainda é ver os pedidos nas ruas pela intervenção militar no país, ferindo toda a democracia conquistada pela vida de muita gente que lutou pelas eleições no Brasil. Ao invés de ver cartazes pedindo melhorias nos hospitais públicos, nas escolas e em toda a educação pública e nos direitos que nos são negados, o que se viu foram cartazes contra Dilma e não pela melhoria do país. 
    Então, era uma manifestação contra uma pessoa, ou melhor, contra um partido, e não um protesto que interessasse aos direitos dos brasileiros. Não vi ninguém defender as favelas, ninguém protestar contra a fome, contra o estado da educação pública nem muito menos contra a morte de inocentes, vítimas da violência nas comunidades.
    Na Rocinha, nada aconteceu, foi apenas mais um dia de sol, onde o trabalhador aproveitou o dia para descansar e se preparar para a luta da semana.
    Quando as manifestações deixarem de ser de ódio contra uma pessoa, ou a um partido, e passarem a representar o interesse de todo o país para uma verdadeira mudança, pode contar comigo e com todos nós, moradores de favela que sonhamos há décadas com a mudança.
Não me representa!
* Davison Coutinho, morador da Rocinha desde o nascimento. Bacharel em desenho industrial pela PUC-Rio, Mestrando em Design pela PUC-Rio, membro da comissão de moradores da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, professor, escritor, designer e liderança comunitária na Comunidade.

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